O que foi o apartheid e quem o construiu?
Entenda como o Partido Nacional, o Estado sul-africano, empresas e leis raciais construíram o apartheid entre 1948 e 1994 — e seu legado.

Resposta curta
O apartheid foi uma ditadura racial construída pelo Estado sul-africano, sobretudo pelo Partido Nacional a partir de 1948, para assegurar terra, trabalho barato e poder político à minoria branca. Governos, Parlamento, polícia, Força de Defesa, burocratas, empresas e ideólogos afrikaners o administraram; leis coloniais britânicas e governos anteriores já haviam criado sua base. O regime terminou juridicamente em 1994, mas sua desigualdade material persiste.
Pontos-chave
- O apartheid foi um sistema estatal de supremacia branca, formalizado pelo Partido Nacional em 1948 e desmontado juridicamente em 1994.
- Governos coloniais e segregacionistas anteriores a 1948 criaram a expropriação territorial, as leis de passe e o mercado de trabalho racializado.
- O Surplus People Project estimou, em 1985, aproximadamente 3,5 milhões de remoções forçadas ocorridas entre 1960 e 1982.
- Estado, burocracia, forças de segurança e empresas sustentaram o regime; a resistência interna e a pressão internacional ajudaram a derrubá-lo.
- A democracia conquistada em 1994 aboliu privilégios legais, mas não eliminou a riqueza, a segregação espacial e a desigualdade herdadas.
A resposta curta: segregação transformada em sistema total
“Apartheid”, palavra africâner para separação, designou um sistema de supremacia branca que classificava pessoas como brancas, africanas negras, mestiças (Coloured) ou indianas/asiáticas, distribuindo direitos conforme essa hierarquia. Não foi apenas separação social: determinava cidadania, residência, propriedade, educação, trabalho, casamento, circulação e representação política na África do Sul.
O Partido Nacional de Daniel François Malan, vencedor da eleição restrita ao eleitorado branco em 1948, sistematizou práticas gestadas sob o colonialismo neerlandês e britânico. A Lei de Terras dos Nativos de 1913 reservou inicialmente cerca de 7% do território aos africanos negros; a legislação de 1936 ampliou a meta para aproximadamente 13%, embora eles constituíssem perto de dois terços da população em 1936, segundo o censo da União Sul-Africana. Entre 1948 e 1994, o Estado converteu essa ordem em “grande apartheid”: cidades brancas, territórios segregados e dez bantustões destinados a retirar dos negros a cidadania sul-africana.
Quem construiu e sustentou o apartheid
A responsabilidade central pertence aos governos do Partido Nacional, chefiados por Malan, J. G. Strijdom, Hendrik Verwoerd, B. J. Vorster, P. W. Botha e, por fim, F. W. de Klerk. Verwoerd, ministro dos Assuntos Nativos entre 1950 e 1958 e primeiro-ministro entre 1958 e 1966, foi seu principal arquiteto administrativo. A burocracia classificou famílias; Parlamento e tribunais validaram leis; polícia, prisões e Força de Defesa reprimiram resistência.
As raízes, porém, antecederam 1948. A conquista colonial, a expropriação de terras, a mineração de diamantes após 1867 e de ouro após 1886, os alojamentos masculinos e as leis de passe produziram mão de obra negra barata. Governos liderados por Louis Botha, Jan Smuts e J. B. M. Hertzog consolidaram a segregação entre 1910 e 1948. Mineradoras, fazendas e indústrias lucraram com salários e mobilidade racialmente controlados; bancos e investidores estrangeiros financiaram a economia, embora parte deles posteriormente aderisse a sanções ou desinvestimento.
“Não há lugar para ele na comunidade europeia acima do nível de certas formas de trabalho.” — Hendrik Verwoerd, ministro dos Assuntos Nativos, discurso no Senado sobre educação bantu, 1954.
Também houve beneficiários brancos que não formularam políticas, mas receberam escolas superiores, bairros protegidos, empregos reservados e crédito. Igrejas reformadas neerlandesas forneceram justificações teológicas, enquanto outras comunidades religiosas contestaram o regime. Situar essa genealogia é essencial para compreender o racismo moderno, sem diluir a responsabilidade específica de seus dirigentes.
As leis, as remoções e a violência: o que mostram as provas
A arquitetura jurídica avançou rapidamente: Lei de Proibição de Casamentos Mistos, 1949; Lei de Registro Populacional, 1950; Lei das Áreas de Grupo, 1950; Lei das Autoridades Bantu, 1951; e Lei de Educação Bantu, 1953. A legislação dos bantustões de 1959 e 1970 procurou transformar africanos negros em cidadãos de territórios dependentes, quatro dos quais Pretória declarou “independentes” entre 1976 e 1981, sem reconhecimento internacional amplo.
O Surplus People Project, investigação publicada em 1985, estimou que aproximadamente 3,5 milhões de pessoas foram removidas à força entre 1960 e 1982. Em Sharpeville, em 21 de março de 1960, a polícia matou 69 pessoas e feriu 180, segundo a comissão oficial; muitas foram atingidas pelas costas. No levante de Soweto iniciado em 16 de junho de 1976, o número oficial foi 23 mortos, mas estimativas históricas e jornalísticas citadas pelo South African History Online variam de 176 a cerca de 700.
A resistência incluiu o Congresso Nacional Africano, o Congresso Pan-Africanista, o Movimento da Consciência Negra, sindicatos e organizações comunitárias. Nelson Mandela foi preso em 1962 e condenado à prisão perpétua no Julgamento de Rivonia em 1964; Steve Biko morreu sob custódia policial em 1977.
O apartheid dependeu de leis publicadas, arquivos burocráticos e violência documentada; sua existência e finalidade supremacista não constituem uma controvérsia historiográfica séria.
Estimativas, controvérsias e negação
Não existe uma cifra única de “mortos pelo apartheid”. As fontes contam universos diferentes: massacres específicos, mortes sob custódia, conflitos políticos ou todas as mortes associadas à repressão e à guerra regional. A Comissão da Verdade e Reconciliação (TRC) recebeu mais de 21.000 depoimentos de vítimas entre 1996 e 1998 e registrou cerca de 38.000 violações graves de direitos humanos, mas seu mandato cobria 1960–1994 e dependia de casos apresentados; não era um censo completo.
| Medida ou episódio | Número e período | Fonte e limite |
|---|---|---|
| Remoções forçadas | cerca de 3,5 milhões, 1960–1982 | Surplus People Project, 1985; estimativa nacional por categorias de deslocamento |
| Massacre de Sharpeville | 69 mortos e 180 feridos, 1960 | Comissão oficial de inquérito, 1960 |
| Levante de Soweto | 23 oficiais; 176–cerca de 700 estimados, 1976 | Governo em 1976; compilações históricas posteriores |
| Depoimentos de vítimas à TRC | mais de 21.000, sobre 1960–1994 | Relatório final da TRC, 1998; participação voluntária |
| Violações graves registradas | cerca de 38.000, 1960–1994 | Base de dados da TRC publicada em 1998; não equivale a mortes |
Apologistas alegam que os bantustões representavam autodeterminação, que a segregação trouxe desenvolvimento ou que todos os lados cometeram violência. Isso confunde resistência e repressão estatal: apenas o governo classificava toda a população, retirava cidadania, controlava território nacional e mantinha forças armadas. A TRC investigou abusos de agentes do Estado e de movimentos de libertação, mas concluiu em 1998 que o apartheid era crime contra a humanidade. A Assembleia Geral da ONU já adotara essa qualificação na Convenção do Apartheid de 1973, em vigor desde 1976.
As divergências legítimas dizem respeito à periodização, ao peso relativo de ideologia e lucro e à contagem das vítimas indiretas. A negação costuma proteger reputações familiares, patrimônios empresariais ou narrativas nacionalistas. Mais documentação sobre África do Sul e racismo moderno mostra por que essas disputas permanecem politicamente úteis.
O fim jurídico e o que dele decorre
O apartheid não caiu por iluminação espontânea de seus autores. Décadas de resistência interna, greves, insurgência, mobilização estudantil, sanções, isolamento esportivo e pressão diplomática elevaram seu custo. De Klerk legalizou o ANC e outras organizações em 2 de fevereiro de 1990; Mandela saiu da prisão em 11 de fevereiro de 1990. As principais leis raciais foram revogadas em 1991, e a primeira eleição nacional com sufrágio adulto não racial ocorreu de 26 a 29 de abril de 1994, levando Mandela à Presidência em 10 de maio de 1994.
A transição criou democracia constitucional, não redistribuição equivalente da riqueza acumulada. O Statistics South Africa calculou coeficiente de Gini de consumo per capita de 0,67 em 2006 e 0,65 em 2015, entre os mais altos registrados mundialmente. Desemprego, propriedade fundiária, acesso a escolas e geografia urbana continuam fortemente racializados.
Reconhecer quem construiu o sistema determina o que reparação significa: abertura de arquivos, restituição territorial, responsabilização empresarial, educação histórica e políticas materiais capazes de enfrentar riqueza herdada. Tratar 1994 como ponto final encobre a continuidade entre expropriação colonial, apartheid e desigualdade contemporânea.
Fontes e leituras adicionais
- South African History Online — Apartheid Legislation 1850s–1970s
- Comissão da Verdade e Reconciliação — Relatório final, 1998
- Nelson Mandela Foundation — Apartheid
- Encyclopaedia Britannica — Apartheid
- Nações Unidas — Convenção Internacional sobre o Crime de Apartheid, 1973
- Statistics South Africa — Poverty Trends in South Africa, 2017
Perguntas frequentes
- Quem criou o apartheid na África do Sul?
- O Partido Nacional, liderado por Daniel François Malan, formalizou o apartheid após vencer a eleição exclusivamente branca de 1948. Hendrik Verwoerd, ministro entre 1950 e 1958 e primeiro-ministro entre 1958 e 1966, desenhou grande parte de sua administração. Colonizadores britânicos e neerlandeses, governos da União Sul-Africana, burocratas, forças policiais e interesses empresariais haviam criado e sustentaram suas bases.
- Quando começou e quando terminou o apartheid?
- O apartheid oficial começou em 1948, quando o Partido Nacional assumiu o governo, embora a segregação colonial fosse muito anterior. Suas principais leis foram revogadas em 1991. O sistema terminou constitucionalmente com a eleição não racial de 26 a 29 de abril de 1994 e a posse de Nelson Mandela em 10 de maio de 1994.
- Quantas pessoas foram removidas à força pelo apartheid?
- O Surplus People Project estimou, em 1985, que aproximadamente 3,5 milhões de pessoas foram removidas à força entre 1960 e 1982. A cifra abrange expulsões de áreas declaradas brancas, reassentamentos rurais, remoções urbanas e deslocamentos para bantustões. É uma estimativa documental, não um registro individual completo de todas as vítimas.
- Quantas pessoas morreram sob o apartheid?
- Não existe total consensual porque as fontes medem episódios e períodos diferentes. Em Sharpeville, a polícia matou 69 pessoas em 1960. Em Soweto, o balanço oficial de 1976 foi 23, enquanto estimativas posteriores variam de 176 a cerca de 700. A Comissão da Verdade registrou cerca de 38.000 violações graves relativas a 1960–1994, não apenas mortes.
- Empresas ajudaram a sustentar o apartheid?
- Sim. Mineradoras, fazendas, indústrias e instituições financeiras operaram dentro de um mercado de trabalho criado por leis raciais, passes, reservas territoriais e empregos protegidos. Desde a mineração de diamantes após 1867 e de ouro após 1886, esse sistema garantiu mão de obra negra barata. A responsabilidade jurídica varia por empresa, mas a dependência econômica da coerção racial é amplamente documentada.
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