Massacre de Sharpeville: apartheid, mortes e legado
Em 21 de março de 1960, a polícia sul-africana matou 69 manifestantes em Sharpeville. Entenda as leis do passe, a repressão e seu legado global.

Em 21 de março de 1960, policiais sul-africanos abriram fogo contra uma multidão negra que protestava pacificamente diante da delegacia de Sharpeville, no Transvaal. O balanço oficial registrou 69 mortos e 180 feridos em 1960; entre os mortos havia 8 mulheres e 10 crianças, segundo a Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul (TRC). Muitas vítimas foram atingidas pelas costas enquanto fugiam.
Sharpeville não foi um confronto entre forças equivalentes. Foi violência de Estado destinada a preservar o apartheid e as leis do passe, que controlavam onde africanos negros podiam viver, trabalhar e circular. O massacre tornou-se um marco na história do colonialismo e do apartheid, na documentação de atrocidades de Estado e na luta internacional contra o racismo institucional.
Pontos-chave
- Em 21 de março de 1960, a polícia do apartheid matou 69 pessoas e feriu 180 durante um protesto antipasses em Sharpeville.
- As leis do passe criminalizavam a circulação negra e garantiam trabalhadores controlados às minas, fazendas, indústrias e residências da minoria branca.
- O massacre levou ao estado de emergência, a mais de 18.000 detenções e à proibição do PAC e do ANC em 1960.
- A ONU condenou a repressão pela Resolução 134 de 1960 e posteriormente transformou 21 de março em dia internacional contra a discriminação racial.
- A Comissão de Verdade e Reconciliação concluiu em 1998 que a polícia empregou força excessiva, mas a responsabilização criminal permaneceu insuficiente.
O que aconteceu em 21 de março de 1960
O Congresso Pan-Africanista (PAC), liderado por Robert Sobukwe, convocou africanos negros a deixarem seus passes em casa e apresentarem-se às delegacias, pedindo prisão coletiva. Em Sharpeville, milhares reuniram-se diante do posto policial. As estimativas contemporâneas variaram de aproximadamente 5.000 pessoas, segundo a polícia em 1960, a cerca de 7.000, segundo relatos jornalísticos e históricos de 1960.
Cerca de 300 policiais estavam mobilizados em 1960, segundo o inquérito oficial citado posteriormente pela TRC. Às 13h15 de 21 de março de 1960, após tensão junto à cerca, policiais dispararam aproximadamente 1.344 tiros, total registrado nas provas do inquérito. O tiroteio durou cerca de 40 segundos em 1960, conforme reconstruções históricas baseadas em testemunhos e registros policiais.
“The police have fired on an unarmed crowd, and the Government must accept full responsibility.” — Albert Luthuli, declaração pública sobre Sharpeville, 1960.
| Data | Acontecimento | Dado concreto |
|---|---|---|
| 21 mar. 1960 | Protesto do PAC em Sharpeville | 5.000–7.000 participantes, conforme estimativas policiais e jornalísticas de 1960 |
| 21 mar. 1960 | Polícia abre fogo | cerca de 300 policiais e 1.344 disparos, segundo o inquérito oficial |
| 30 mar. 1960 | Governo declara estado de emergência | mais de 18.000 detenções até agosto de 1960, segundo registros governamentais citados pela ONU |
| 8 abr. 1960 | PAC e ANC são proibidos | 2 organizações ilegalizadas pelo Unlawful Organizations Act de 1960 |
O mecanismo: passes, trabalho e segregação
As leis do passe transformavam a mobilidade negra em infração administrativa. O Natives (Abolition of Passes and Co-ordination of Documents) Act de 1952, apesar do título enganoso, ampliou o documento de referência: africanos negros com 16 anos ou mais em 1952 tinham de portar registros de identidade, emprego, autorização territorial e obrigações fiscais. A falta ou irregularidade podia levar à prisão.
O sistema fornecia mão de obra controlada às minas, fazendas, indústrias e residências brancas, ao mesmo tempo que removia famílias de áreas reservadas à população branca. Entre 1916 e 1984, autoridades sul-africanas efetuaram aproximadamente 17 milhões de prisões e processos por infrações às leis do passe, cálculo apresentado pelo historiador Philip Bonner e reproduzido em estudos acadêmicos; séries oficiais incompletas produzem variações conforme se contem prisões, acusações ou condenações.
Fatos essenciais
- O massacre ocorreu na União Sul-Africana, governada em 1960 pelo primeiro-ministro Hendrik Verwoerd e pelo Partido Nacional.
- A campanha de 1960 contestava controles raciais de circulação, residência e trabalho, não uma exigência policial neutra.
- Os passes ajudavam empregadores brancos a recrutar trabalhadores negros sob coerção jurídica e profunda desigualdade salarial.
- O Estado respondeu ao protesto com balas, detenções em massa, estado de emergência e proibição das principais organizações africanas.
Os números: mortos, feridos e repressão
O número consolidado e amplamente aceito é de 69 mortos e 180 feridos em 1960, conforme o inquérito governamental e a TRC. Fontes iniciais publicaram totais de 67 a 72 mortos em março de 1960, intervalo resultante de óbitos posteriores, identificação incompleta e boletins sucessivos; a contagem histórica estabilizou-se em 69.
| Medida | Total ou faixa | Fonte da estimativa |
|---|---|---|
| Mortos | 69 em 1960; informes iniciais de 67–72 | inquérito sul-africano; TRC; boletins de março de 1960 |
| Feridos | 180 em 1960 | inquérito oficial e TRC |
| Mulheres mortas | 8 em 1960 | TRC |
| Crianças mortas | 10 em 1960 | TRC |
| Pessoas atingidas | 249 em 1960 | soma consolidada de 69 mortos e 180 feridos |
| Presos no estado de emergência | mais de 18.000 em 1960 | registros oficiais compilados pela ONU |
Os totais devem ser lidos como pessoas, não abstrações estatísticas. Fotografias de Ian Berry e outras imagens mostram corpos espalhados e roupas perfuradas nas costas. Mais séries comparáveis estão no arquivo de dados históricos.
Quem lucrou e quem sustentou o regime
Sharpeville protegia uma economia estruturada pela expropriação de terras e pelo trabalho negro barato. Companhias mineradoras reunidas na Chamber of Mines, inclusive grupos como Anglo American e De Beers, beneficiaram-se do sistema de trabalhadores migrantes, alojamentos masculinos e repressão sindical. Fazendeiros, indústrias, municípios e famílias brancas também obtiveram mão de obra cuja mobilidade era policiada.
Em 1960, a África do Sul extraiu aproximadamente 20 milhões de onças troy de ouro, equivalentes a cerca de 622 toneladas, segundo séries do Minerals Council South Africa e do US Geological Survey; revisões históricas situam o total em aproximadamente 620–625 toneladas em 1960. Ao preço oficial de US$ 35 por onça em 1960, essa produção tinha valor bruto teórico próximo de US$ 700 milhões em 1960, antes de custos, refino e outras receitas.
O massacre não decorreu apenas de preconceito individual: a coerção racial reduzia o poder de negociação dos trabalhadores e defendia receitas empresariais, impostos estatais e privilégios territoriais brancos.
Bancos e investidores estrangeiros continuaram financiando empresas e o Estado durante décadas, embora a pressão por desinvestimento crescesse depois de 1960. Não existe uma contabilidade histórica que atribua uma parcela específica de lucro ao massacre; o vínculo demonstrável é sistêmico, entre passes, oferta coerciva de trabalho e acumulação empresarial.
Resistência, proibições e internacionalização
A repressão acelerou uma mudança estratégica. A sequência principal foi:
- Em 21 de março de 1960, o PAC conduziu a campanha antipasses e a polícia matou 69 pessoas em Sharpeville.
- Em 30 de março de 1960, o governo declarou estado de emergência e deteve mais de 18.000 pessoas até agosto de 1960, segundo compilações da ONU.
- Em 1º de abril de 1960, o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 134 por 9 votos a favor, 0 contra e 2 abstenções, sua primeira ação sobre a África do Sul.
- Em 8 de abril de 1960, o Unlawful Organizations Act proibiu o PAC e o Congresso Nacional Africano (ANC).
- Em 1961, o ANC formou o Umkhonto we Sizwe; o PAC organizou o Poqo, posteriormente associado ao Exército de Libertação Popular Azaniano.
- Em 1966, a Assembleia Geral da ONU instituiu 21 de março como Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, pela Resolução 2142 (XXI).
A resistência incluiu greves, campanhas clandestinas, organização comunitária, ações armadas, boicotes e mobilização internacional. Sharpeville ajudou a destruir a alegação de que o apartheid poderia ser reformado sem alterar a supremacia branca.
Negação, responsabilização e memória atual
O governo alegou em 1960 que policiais temeram ser cercados e agiram em autodefesa. O primeiro-ministro Hendrik Verwoerd descreveu o episódio como reação a uma multidão hostil. Essas justificativas omitiram a assimetria entre manifestantes desarmados e policiais equipados com armas de fogo, além da evidência de tiros pelas costas.
A Comissão de Verdade e Reconciliação, em seu relatório final de 1998, considerou o uso da força excessivo e atribuiu graves violações de direitos humanos à polícia. A TRC ofereceu reconhecimento institucional, mas não produziu responsabilização penal proporcional para os comandantes e atiradores. Em 1996, Nelson Mandela assinou em Sharpeville a Constituição democrática da África do Sul; desde 1995, o país celebra 21 de março como Dia dos Direitos Humanos.
Sharpeville permanece relevante porque expõe como documentos, zoneamento, policiamento e mercado de trabalho podem operar como uma única tecnologia racial. O massacre também exige cautela contra narrativas que isolam 69 mortes do sistema econômico e jurídico que as tornou possíveis. Sua memória liga atrocidades coloniais e racistas às disputas atuais sobre violência policial, desigualdade territorial, reparação e justiça econômica.
Fontes e leituras complementares
- South African History Online — Sharpeville Massacre, 21 March 1960
- Truth and Reconciliation Commission of South Africa — Final Report
- Organização das Nações Unidas — Sharpeville Massacre
- Conselho de Segurança da ONU — Resolução 134, de 1960
- Encyclopaedia Britannica — Sharpeville massacre
- Oxford Research Encyclopedia — Pass Laws in South Africa
Perguntas frequentes
- Quantas pessoas morreram no massacre de Sharpeville?
- A contagem histórica consolidada registra 69 mortos e 180 feridos em 21 de março de 1960, totalizando 249 vítimas atingidas. Boletins iniciais de março de 1960 variaram entre 67 e 72 mortos, mas o inquérito oficial e a Comissão de Verdade e Reconciliação fixaram o total em 69, incluindo 8 mulheres e 10 crianças.
- Por que ocorreu o massacre de Sharpeville?
- O massacre ocorreu durante uma campanha do Congresso Pan-Africanista contra as leis do passe do apartheid. Em 21 de março de 1960, aproximadamente 5.000 a 7.000 pessoas reuniram-se diante da delegacia de Sharpeville sem seus documentos. Cerca de 300 policiais abriram fogo, efetuando aproximadamente 1.344 disparos e matando 69 manifestantes.
- O que eram as leis do passe na África do Sul?
- As leis do passe obrigavam africanos negros a portar documentos que registravam identidade, emprego e autorização para permanecer em determinadas áreas. O ato de 1952 ampliou esse controle para pessoas negras com 16 anos ou mais. Entre 1916 e 1984, ocorreram aproximadamente 17 milhões de prisões e processos por infrações ao sistema, segundo estimativas históricas de Philip Bonner.
- Quem ordenou os disparos em Sharpeville?
- Não foi estabelecida uma ordem individual inequívoca para iniciar o fogo. A polícia sul-africana, subordinada ao governo do primeiro-ministro Hendrik Verwoerd, alegou perda de controle e autodefesa. O inquérito de 1960 não assegurou responsabilização efetiva; em 1998, a Comissão de Verdade e Reconciliação concluiu que a polícia usou força excessiva e cometeu graves violações de direitos humanos.
- Qual foi a consequência internacional do massacre de Sharpeville?
- Em 1º de abril de 1960, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 134 por 9 votos e 2 abstenções, condenando a situação criada pelas políticas sul-africanas. Em 1966, a Assembleia Geral instituiu 21 de março como Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, vinculando permanentemente a data às 69 mortes de Sharpeville.
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