1757: Plassey e a conquista de Bengala pela Companhia
Como a vitória da Companhia das Índias Orientais em Plassey, em 1757, converteu intriga política, capital mercantil e violência em domínio colonial.

Em 23 de junho de 1757, perto de Palashi — anglicizada como Plassey —, a Companhia Britânica das Índias Orientais derrotou Siraj-ud-Daulah, nababo de Bengala. Não foi uma simples vitória nacional britânica: uma sociedade anônima armada, comandada por Robert Clive, comprou a deserção de Mir Jafar e transformou uma batalha breve na abertura política para capturar a receita pública da província mais rica do Império Mogol.
Plassey não entregou imediatamente toda Bengala à Companhia. O processo passou pelo golpe de 1757, pela vitória militar de Buxar em 1764 e pela concessão do diwani — o direito de arrecadar receitas — em 1765. Em 1772–1773, reformas administrativas e parlamentares formalizaram um Estado empresarial que financiaria a expansão do Império Britânico.
Pontos-chave
- Plassey, em 1757, foi uma mudança de regime corporativa viabilizada pela deserção negociada de Mir Jafar.
- A Companhia venceu com cerca de 3.000 homens contra aproximadamente 50.000, cuja maior parte não entrou efetivamente em combate.
- A vitória abriu transferências avaliadas em cerca de 22 milhões de rúpias para interesses britânicos e aliados em 1757.
- O controle fiscal decisivo chegou em 1765, quando a Companhia recebeu o direito de arrecadar receitas em Bengala, Bihar e Orissa.
- A extração colonial agravou a vulnerabilidade durante a fome de 1769–1773, cuja mortalidade é estimada entre 7 e 10 milhões.
Bengala antes de Plassey
Bengala era, em 1757, um subah mogol praticamente autônomo, governado desde 1756 por Siraj-ud-Daulah. Seus tecidos de algodão e seda, arroz, açúcar e salitre abasteciam redes asiáticas e europeias; Hugh V. Bowen estima que Bengala respondia por cerca de 60% das importações asiáticas da Companhia na década de 1750. A autoridade imperial de Alamgir II estava enfraquecida, enquanto a invasão de Ahmad Shah Durrani ao norte da Índia, em 1756–1757, desviava forças mogóis.
A Companhia negociava em Bengala desde o século XVII sob privilégios imperiais, mas fortificava Calcutá e abusava de passes alfandegários. Siraj tomou a cidade em 20 de junho de 1756. O episódio depois chamado “Buraco Negro de Calcutá” foi usado como justificativa imperial: John Zephaniah Holwell afirmou, em 1758, que 123 dos 146 prisioneiros morreram; estudos posteriores, incluindo os de Brijen Gupta em 1958, consideraram esses números improváveis e sugeriram cerca de 64 presos e 21 sobreviventes, isto é, aproximadamente 43 mortos.
“One hundred and twenty-three were suffocated in the Black Hole prison.” — John Zephaniah Holwell, 1758, A Genuine Narrative of the Deplorable Deaths of the English Gentlemen… A cifra é uma alegação primária contestada, não um fato estabelecido.
Golpe, batalha e tomada do poder
Robert Clive retomou Calcutá em janeiro de 1757 e obteve novas concessões pelo Tratado de Alinagar, assinado em 9 de fevereiro. Enquanto britânicos e franceses combatiam na Guerra dos Sete Anos, a Companhia capturou Chandernagore, entreposto francês, em 23 de março. Clive então conspirou com Mir Jafar, comandante de Siraj, com o banqueiro Jagat Seth e com cortesãos bengalis. Um tratado secreto prometeu o trono a Mir Jafar; o intermediário Omichand foi enganado com uma versão falsa.
Em 23 de junho, Clive dispunha de aproximadamente 3.000 homens: cerca de 800 soldados europeus, 2.100 sipaios e 100 artilheiros, segundo estimativas tradicionais sintetizadas por Sushil Chaudhury em 2000. Siraj reuniu aproximadamente 50.000 soldados, 50 canhões e apoio de cerca de 50 artilheiros franceses; os totais variam conforme a inclusão de contingentes que não combateram. Mir Jafar e outros comandantes mantiveram dezenas de milhares de homens imóveis. Após uma chuva danificar parte da pólvora bengali, a Companhia atacou. Siraj fugiu, foi capturado e morto em 2 de julho de 1757 por homens ligados a Miran, filho de Mir Jafar.
| Data | Evento | Consequência |
|---|---|---|
| 20 jun. 1756 | Siraj toma Calcutá | A Companhia perde seu principal entreposto bengali |
| 2 jan. 1757 | Clive reconquista Calcutá | Restaura a base militar britânica |
| 9 fev. 1757 | Tratado de Alinagar | Siraj confirma privilégios comerciais |
| 23 mar. 1757 | Queda de Chandernagore | O apoio francês ao nababo é reduzido |
| abr.–jun. 1757 | Conspiração com Mir Jafar | A Companhia prepara uma mudança de regime |
| 23 jun. 1757 | Batalha de Plassey | A deserção decide a vitória de Clive |
| 2 jul. 1757 | Assassinato de Siraj | Elimina o governante deposto |
| 29 jun. 1757 | Mir Jafar é instalado | Um nababo dependente assume Bengala |
| 22 out. 1764 | Batalha de Buxar | A Companhia derrota uma coalizão regional |
| 12 ago. 1765 | Concessão do diwani | A Companhia obtém receitas de Bengala, Bihar e Orissa |
| 1772–1773 | Reformas e Regulating Act | Governo empresarial torna-se administração territorial |
Veja também a cronologia geral do arquivo.
Os números da vitória e do saque
As perdas imediatas foram pequenas diante das consequências. Robert Orme registrou, em 1763, 22 mortos e 50 feridos no lado da Companhia em 1757; relatos britânicos contemporâneos situaram os mortos do exército de Siraj em aproximadamente 500, cifra incerta porque o campo derrotado não produziu contagem equivalente.
A transferência financeira foi muito maior. O acordo de 1757 prometeu à Companhia, seus oficiais, comerciantes e habitantes de Calcutá cerca de 22 milhões de rúpias, conforme cálculos de P. J. Marshall publicados em 1976; pagamentos efetivos e categorias variam entre fontes. Clive recebeu pessoalmente 234.000 libras esterlinas em 1757 e, em 1765, um jagir anual estimado em 27.000 libras, segundo Marshall. A Companhia também recebeu os zamindari de 24 Parganas em 1757.
Plassey foi menos uma demonstração de superioridade militar do que uma “revolução de palácio” financiada e explorada pela Companhia — interpretação associada a P. J. Marshall, 1976, East Indian Fortunes.
O que Plassey colocou em movimento
Mir Jafar não conseguiu satisfazer as exigências financeiras da Companhia. Foi substituído por Mir Qasim em 1760, restaurado em 1763 e mantido dependente. Em Buxar, em 22 de outubro de 1764, aproximadamente 7.000 soldados da Companhia, sob Hector Munro, derrotaram uma coalizão estimada entre 35.000 e 40.000 homens de Mir Qasim, Shuja-ud-Daula e Shah Alam II. Buxar, mais que Plassey isoladamente, assegurou supremacia militar regional.
Em 12 de agosto de 1765, Shah Alam II concedeu à Companhia o diwani de Bengala, Bihar e Orissa. A corporação passou a arrecadar impostos enquanto o nababo conservava responsabilidades nominais: o “duplo governo” permitia extração sem responsabilidade pública correspondente. Ranajit Guha calculou, em 1963, que a receita territorial de Bengala cresceu de aproximadamente 14,3 milhões de rúpias em 1765–1766 para 23,4 milhões em 1771–1772.
A Grande Fome de Bengala, em 1769–1773, ocorreu sob esse regime. Estimativas contemporâneas repetidas por administradores britânicos apontaram cerca de 10 milhões de mortos — aproximadamente um terço da população —, mas a demografia é precária; Tim Dyson, em 2018, manteve a ordem de grandeza entre 7 e 10 milhões. Seca, perda de colheitas, tributação inflexível, especulação e prioridades comerciais da Companhia ampliaram a mortalidade.
A crise fiscal levou o Parlamento britânico ao Regulating Act de 1773, que criou um governador-geral em Bengala; Warren Hastings ocupou o cargo entre 1773 e 1785. O Estado britânico passou a supervisionar a corporação sem abandonar a extração. Bengala financiou exércitos de sipaios e campanhas que expandiram o Império Britânico pelo sul da Ásia e, no século XIX, pela Birmânia.
Memória, responsabilidade e legado
A memória imperial apresentou Plassey como audácia de Clive contra forças esmagadoras. Essa narrativa apaga fraude contratual, suborno, alianças locais e a natureza corporativa da conquista. A leitura nacionalista indiana frequentemente trata 23 de junho de 1757 como início do domínio britânico, embora a soberania tenha sido adquirida gradualmente entre o golpe de 1757, o diwani de 1765 e a reorganização de 1772–1773.
Mir Jafar virou sinônimo de traidor no sul da Ásia, mas concentrar toda a culpa nele reduz um sistema de colaboração comprado pela Companhia. Clive foi interrogado pelo Parlamento em 1772–1773; a Câmara dos Comuns reconheceu, em maio de 1773, que ele adquirira grande fortuna, mas decidiu que prestara “grandes e meritórios serviços” ao país. Morreu em 22 de novembro de 1774.
Plassey deve ser lembrada como a passagem do comércio armado à soberania fiscal: uma corporação capturou instituições bengalis e remeteu riqueza a acionistas e funcionários. Para acompanhar essa transformação em escala global, consulte Império Britânico e a linha do tempo colonial.
Fontes e leituras complementares
Perguntas frequentes
- O que aconteceu na Batalha de Plassey em 1757?
- Em 23 de junho de 1757, aproximadamente 3.000 homens da Companhia Britânica das Índias Orientais, comandados por Robert Clive, derrotaram o exército de Siraj-ud-Daulah perto de Palashi, em Bengala. A vitória dependeu da inatividade deliberada de Mir Jafar e outros comandantes. Siraj foi deposto e morto; Mir Jafar tornou-se nababo sob forte dependência da Companhia.
- Quantas pessoas morreram na Batalha de Plassey?
- Robert Orme registrou em 1763 que a Companhia perdeu 22 mortos e 50 feridos na batalha de 23 de junho de 1757. Relatos britânicos estimaram aproximadamente 500 mortos no lado de Siraj-ud-Daulah, mas essa cifra é menos segura porque não houve contagem independente do exército derrotado. A importância de Plassey decorreu mais do golpe político que da mortalidade no campo.
- Por que Mir Jafar traiu Siraj-ud-Daulah?
- Mir Jafar participou da conspiração de 1757 porque pretendia substituir Siraj-ud-Daulah como nababo. Robert Clive, agentes da Companhia, banqueiros da casa Jagat Seth e cortesãos firmaram um acordo secreto: Mir Jafar manteria suas tropas inativas em Plassey e, em troca, receberia o trono. A Companhia obteve pagamentos, concessões territoriais e influência decisiva sobre o novo governo.
- Plassey deu imediatamente toda Bengala aos britânicos?
- Não. Plassey instalou Mir Jafar em 1757 e tornou a Companhia árbitra da política bengali, mas a soberania fiscal veio depois. A vitória de Buxar ocorreu em 22 de outubro de 1764; em 12 de agosto de 1765, Shah Alam II concedeu à Companhia o *diwani* de Bengala, Bihar e Orissa. Reformas de 1772–1773 consolidaram a administração territorial.
- Qual foi a relação entre Plassey e a fome de Bengala?
- Plassey iniciou o regime político que permitiu à Companhia capturar receitas; o *diwani* de 1765 tornou esse poder fiscal direto. Durante a fome de 1769–1773, seca e fracasso agrícola combinaram-se com tributação rígida, especulação e prioridades comerciais. Tim Dyson estimou em 2018 entre 7 e 10 milhões de mortos; a cifra contemporânea tradicional era 10 milhões, cerca de um terço da população.
Capítulos relacionados
Anos
- 1492 e a abertura do mundo atlântico
- 1519–1521: a conquista espanhola do Império Asteca
- 1652: a fundação da Colônia Holandesa do Cabo
- 1791–1804: a Revolução Haitiana
- 1833–1838: abolição britânica e indenização senhorial
- 1857: a Rebelião Indiana contra o domínio britânico
- 1884–1885: Conferência de Berlim e partilha da África
- 1904–1908: o genocídio dos herero e nama
- 1919: Amritsar e o ano em que o império mostrou sua face
Fontes e leituras
CC BY 4.0 ·