1904–1908: o genocídio dos herero e nama
Referência sobre o genocídio herero e nama na Namíbia: guerra colonial alemã, ordem de extermínio, campos, mortes, reparações e memória.

Entre 1904 e 1908, o Império Alemão conduziu, no Sudoeste Africano Alemão — atual Namíbia — uma guerra de extermínio contra os povos herero e nama. Expulsões para o deserto, destruição de fontes de água, execuções, fome, trabalhos forçados e campos de concentração mataram dezenas de milhares. A estimativa oficial alemã de 1918 registrou a queda da população herero de cerca de 80.000 para 15.130 e calculou aproximadamente 10.000 mortes nama.
O episódio é amplamente reconhecido como o primeiro genocídio do século XX. Esta página situa os acontecimentos na cronologia do arquivo e conduz ao dossiê documental sobre o genocídio herero e nama.
Pontos-chave
- O Império Alemão exterminou comunidades herero e nama entre 1904 e 1908 por expulsão, sede, fome, encarceramento e trabalho forçado.
- A ordem de Lothar von Trotha, emitida em 2 de outubro de 1904, declarou que todo herero encontrado seria fuzilado.
- O relatório britânico de 1918 estimou aproximadamente 65.000 herero mortos e cerca de 10.000 nama mortos.
- Os campos coloniais, sobretudo Shark Island, combinaram confinamento, desnutrição, doença, exposição climática e trabalho forçado deliberadamente letal.
- A Alemanha reconheceu o genocídio em 2021, mas descendentes herero e nama contestaram o acordo de € 1,1 bilhão.
Antes de 1904: conquista, terra e coerção
A Alemanha proclamou o Sudoeste Africano Alemão em 1884, apropriando-se de territórios habitados por sociedades herero, nama, damara e san. Tratados desiguais, violência militar e endividamento facilitaram a transferência de terras, gado e água para colonos e companhias. Após a peste bovina de 1897, que destruiu grande parte dos rebanhos africanos, comerciantes europeus intensificaram empréstimos predatórios e confiscos.
Em 1903, a administração colonial tinha consolidado um regime racial que subordinava africanos à autoridade de colonos, policiais e magistrados alemães. Violações, espancamentos e expropriações raramente recebiam punição equivalente à imposta aos africanos. A ferrovia e os postos militares ampliaram a capacidade estatal de ocupar terras e deslocar populações.
O genocídio não começou como uma disputa simétrica entre povos. Nasceu de uma colônia de povoamento fundada na soberania racial, na tomada de recursos e na força militar.
A insurreição herero de janeiro de 1904 ocorreu nesse contexto. Combatentes sob Samuel Maharero atacaram fazendas, ferrovias e instalações coloniais; segundo instruções atribuídas a Maharero em 1904, mulheres, crianças, missionários e estrangeiros não alemães deveriam ser poupados. A resposta imperial transformou a repressão colonial em política de destruição coletiva.
1904–1908: da guerra ao extermínio
O imperador Guilherme II substituiu o governador Theodor Leutwein pelo tenente-general Lothar von Trotha, veterano das guerras coloniais na África Oriental Alemã e na China. Em 11 de agosto de 1904, tropas alemãs cercaram forças herero em Waterberg. A batalha não produziu um cerco completo, mas empurrou famílias e combatentes para o Omaheke, margem ocidental do Kalahari. Patrulhas bloquearam rotas de retorno; testemunhos e relatórios registraram fontes vigiadas ou inutilizadas.
Em 2 de outubro de 1904, von Trotha publicou o Vernichtungsbefehl, a ordem de extermínio:
“Dentro das fronteiras alemãs, todo herero, com ou sem arma, com ou sem gado, será fuzilado.” — Lothar von Trotha, Proclamação ao povo herero, 1904.
A formulação também determinava que mulheres e crianças fossem expulsas, expondo-as à morte no deserto. Berlim revogou formalmente a ordem em dezembro de 1904, mas não encerrou a perseguição. Sobreviventes foram internados em campos, marcados para identificação e submetidos a trabalho forçado. Em outubro de 1904, comunidades nama lideradas por Hendrik Witbooi e Jakob Morenga iniciaram resistência guerrilheira; a Alemanha respondeu com deportações, campos e punição coletiva.
| Data | Evento | Consequência |
|---|---|---|
| 1884 | A Alemanha declara o Sudoeste Africano Alemão | Começa a ocupação colonial formal de terras e recursos. |
| 1897 | A peste bovina devasta rebanhos africanos | Aumentam dívidas, perda de gado e dependência econômica. |
| 12 jan. 1904 | Começa a insurreição herero | A Alemanha envia reforços e amplia a guerra colonial. |
| 11 ago. 1904 | Batalha de Waterberg | Herero são empurrados para o deserto de Omaheke. |
| 2 out. 1904 | Von Trotha emite a ordem de extermínio | Herero encontrados na colônia passam a ser alvo declarado de execução ou expulsão. |
| out. 1904 | Começa a resistência nama | A guerra se estende ao sul da colônia. |
| dez. 1904 | Berlim revoga a ordem de extermínio | Assassinato aberto dá lugar a encarceramento e trabalho forçado sistemáticos. |
| out. 1905 | Hendrik Witbooi morre em combate | A resistência nama perde uma liderança central, mas continua. |
| 1905–1907 | Funcionam campos como Shark Island | Fome, doença, exposição, violência e trabalho forçado elevam a mortalidade. |
| 31 mar. 1907 | A Alemanha declara encerrada a guerra | Operações e confinamento prosseguem durante 1907. |
| 1908 | Fecham os principais campos | Sobreviventes permanecem expropriados e submetidos ao regime laboral colonial. |
Mortos, campos e destruição demográfica
As cifras variam porque a população anterior à guerra foi estimada, os registros coloniais são incompletos e inúmeras pessoas morreram no deserto sem documentação individual. O Blue Book britânico de 1918, baseado em arquivos e depoimentos, estimou cerca de 80.000 herero antes da guerra e apenas 15.130 sobreviventes, perda próxima de 65.000 pessoas, ou 81%. Para os nama, a mesma investigação calculou aproximadamente 10.000 mortos, cerca de metade da população estimada.
A literatura histórica posterior costuma apresentar uma faixa de 40.000 a 80.000 mortos herero e cerca de 10.000 mortos nama entre 1904 e 1908. Isabel V. Hull, em 2005, trabalhou com uma mortalidade herero próxima de 75% a 80%; Jürgen Zimmerer e Joachim Zeller, em 2003, destacaram a destruição de aproximadamente 80% dos herero e 50% dos nama. Essas diferenças não alteram a conclusão: houve intenção explícita de destruir os herero e políticas exterminadoras aplicadas aos nama.
Shark Island, perto de Lüderitz, tornou-se o campo mais notório. Prisioneiros nama e herero enfrentaram vento, frio, abrigo insuficiente, rações mínimas, doença e trabalho pesado. Restos mortais foram enviados à Alemanha para pesquisas raciais; prisioneiras foram obrigadas a preparar crânios para transporte.
O que o genocídio colocou em movimento
A derrota permitiu à administração alemã confiscar terras e rebanhos, dissolver estruturas políticas e converter sobreviventes em mão de obra controlada. Regulamentos de 1907 impuseram registro, passes e contratos laborais aos africanos; herero foram proibidos de possuir gado em escala capaz de reconstruir sua autonomia econômica. A colônia tornou-se mais rigidamente segregada.
Os campos anteciparam práticas depois presentes em outros sistemas coloniais e autoritários: concentração de civis, identificação compulsória, trabalho extenuante e administração racial da sobrevivência. Há continuidades institucionais e intelectuais entre a ciência racial colonial e o racismo alemão posterior, mas não uma linha automática que torne o Holocausto mera repetição. Eugen Fischer estudou pessoas mestiças em Rehoboth em 1908 e publicou conclusões racistas em 1913; suas ideias influenciaram a eugenia alemã.
O domínio alemão terminou durante a Primeira Guerra Mundial, quando forças sul-africanas ocuparam a colônia em 1915. O mandato sul-africano concedido em 1920 preservou expropriações e aprofundou a segregação. A desigualdade fundiária da Namíbia independente, alcançada em 1990, permanece ligada a essa história. Consulte também a linha do tempo geral e o arquivo temático.
Memória, reconhecimento e reparações
Durante décadas, o Estado alemão evitou responsabilidade jurídica direta. Em 2004, no centenário de Waterberg, a ministra alemã Heidemarie Wieczorek-Zeul pediu perdão e reconheceu a culpa histórica e moral, embora sem anunciar reparações. Em 2015, o governo alemão passou a usar oficialmente o termo genocídio.
Em maio de 2021, Alemanha e Namíbia anunciaram uma declaração conjunta: a Alemanha reconheceu como genocídio os acontecimentos de 1904–1908 e ofereceu € 1,1 bilhão, distribuído ao longo de 30 anos, para projetos de desenvolvimento e reconciliação. Lideranças herero e nama contestaram o acordo por participação insuficiente, rejeição de reparações juridicamente definidas e negociação predominantemente entre governos. Em 2021, o parlamento namibiano não havia ratificado a declaração; as disputas continuaram nos anos seguintes.
A devolução de restos humanos avançou parcialmente: instituições alemãs realizaram repatriações à Namíbia em 2011, 2014 e 2018. Crânios e outros restos, entretanto, continuam dispersos em coleções. Recordar o genocídio exige identificar perpetradores, restaurar arquivos e terras quando possível e incluir descendentes nas decisões — não reduzir extermínio a “excessos” de uma guerra colonial.
Fontes e leituras complementares
- Encyclopaedia Britannica — Genocídio herero e nama
- United States Holocaust Memorial Museum — Herero and Nama genocide
- Jürgen Zimmerer e Joachim Zeller — Genocide in German South-West Africa
- Isabel V. Hull — Absolute Destruction
- Jeremy Sarkin — Germany’s Genocide of the Herero
- Nações Unidas — relatores criticam o acordo de reconciliação
Perguntas frequentes
- O que foi o genocídio dos herero e nama?
- Foi a destruição deliberada de populações herero e nama pelo Império Alemão no Sudoeste Africano Alemão, atual Namíbia, entre 1904 e 1908. Sob Lothar von Trotha, tropas expulsaram herero para o deserto, bloquearam retornos e internaram sobreviventes. A historiografia estima entre 40.000 e 80.000 mortos herero e cerca de 10.000 mortos nama.
- Quantas pessoas morreram no genocídio herero e nama?
- O relatório britânico de 1918 estimou que os herero caíram de cerca de 80.000 para 15.130 pessoas, indicando aproximadamente 65.000 mortes, e calculou cerca de 10.000 mortos nama. Estudos modernos costumam citar 40.000 a 80.000 mortos herero e aproximadamente 10.000 nama entre 1904 e 1908, devido à incerteza dos censos coloniais.
- Quem ordenou o extermínio dos herero?
- O tenente-general alemão Lothar von Trotha emitiu, em 2 de outubro de 1904, a ordem conhecida como *Vernichtungsbefehl*. Ela declarava que todo herero encontrado dentro da colônia, armado ou não, seria fuzilado. O imperador Guilherme II havia enviado von Trotha para substituir Theodor Leutwein e conduzir a repressão militar.
- O que aconteceu no campo de Shark Island?
- Entre 1905 e 1907, aproximadamente, Shark Island, perto de Lüderitz, confinou sobretudo prisioneiros nama e herero. Eles sofreram frio, vento, abrigo precário, fome, doenças, espancamentos e trabalho forçado. A mortalidade foi extrema, embora os registros não permitam um total consensual. Corpos e crânios de vítimas foram enviados a instituições alemãs para pesquisas raciais.
- A Alemanha pagou reparações aos herero e nama?
- Em 2021, Alemanha e Namíbia anunciaram € 1,1 bilhão ao longo de 30 anos para desenvolvimento e reconciliação, após o reconhecimento alemão do genocídio de 1904–1908. Berlim evitou classificar a quantia como reparação jurídica. Representantes herero e nama rejeitaram o processo por exclusão das negociações e insuficiência material; a declaração continuou politicamente contestada.
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Fontes e leituras
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