O espelho da esquerda
O racismo mais difícil de nomear é aquele que tem uma cara amigável. Grande parte do progressismo ocidental fez as pazes com as pessoas do mundo outrora colonizado, desde que essas pessoas continuem a sofrer, agradecidas e numa posição inferior.
Este capítulo não é um argumento contra a esquerda. É um argumento de dentro dela. A tradição política que produziu a solidariedade anticolonial, o movimento pelos direitos civis, a organização contra o apartheid e a maior parte da crítica realmente existente ao império é também, em suas alas ocidentais e bem-alimentadas, o lar de um racismo mais silencioso e mais auto-satisfeito que merece sua própria página.
Chame-o de racismo da mão aberta. Seu primeiro princípio é: seja compassivo com quem precisa de você. Seu segundo princípio, não declarado: não tolere quem não precisa de você.
§ 01
O reflexo do salvador branco
Existe um tipo particular de progressista ocidental que encontra sentido em ajudar. Ajudar no exterior, ajudar refugiados, ajudar aqueles que sofrem visivelmente. O trabalho costuma ser real, as doações costumam ser úteis. Mas subjacente ao ato de ajudar, há uma hipótese estrutural: a relação sempre fluirá em uma única direção. Quem ajuda no Ocidente jamais será ajudado. O 'beneficiário' jamais será um igual.
O sinal mais claro dessa dinâmica é o que acontece quando a pessoa antes ajudada cresce, prospera, abre uma empresa, inicia um movimento ou, simplesmente, deixa de se mostrar agradecida. O calor, muito frequentemente, evapora-se. Essa mesma pessoa, antes elogiada como heroica recebedora de ajuda, passa a ser, no instante em que pede paridade, ingrata, exigente ou 'difícil'.

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Referências
Fontes e leituras complementares
- [1]Edward W. Said, Orientalism (Pantheon, 1978).
- [2]Frantz Fanon, The Wretched of the Earth (François Maspero, 1961; English: Grove, 1963).
- [3]Lila Abu-Lughod, "Do Muslim Women Really Need Saving?", American Anthropologist 104:3 (2002).
- [4]Teju Cole, "The White-Savior Industrial Complex", The Atlantic (21 March 2012).
- [5]Asad Haider, Mistaken Identity: Race and Class in the Age of Trump (Verso, 2018).
- [6]Vijay Prashad, The Darker Nations: A People's History of the Third World (The New Press, 2007).
- [7]Iraq Body Count Project, Documented civilian deaths from violence; Burnham et al., Lancet 368:9545 (2006).
All works cited in good faith for documentary, educational and critical use. Errors and omissions: contact the archive.
§ 02
A permissão para ser moderno
Quando um progressista ocidental imagina um país não ocidental 'bom', ele imagina, por padrão, artesanato, agricultura sustentável, festivais coloridos, espiritualidade profunda e uma avó sábia ensinando a sua neta. Ele não imagina uma fábrica de chips em Hsinchu, uma plataforma de pagamentos em Nairóbi, uma fábrica de vacinas em Pune ou uma adolescente de Teerã fazendo matemática de competição.
A regra implícita é: você pode ser autêntico ou pode ser moderno, mas não as duas coisas. Ser moderno é se tornar uma cópia de nós, e as cópias são sempre inferiores aos originais. Isso é racismo disfarçado de apreciação multicultural.

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Referências
Fontes e leituras complementares
- [1]Edward W. Said, Orientalism (Pantheon, 1978).
- [2]Frantz Fanon, The Wretched of the Earth (François Maspero, 1961; English: Grove, 1963).
- [3]Lila Abu-Lughod, "Do Muslim Women Really Need Saving?", American Anthropologist 104:3 (2002).
- [4]Teju Cole, "The White-Savior Industrial Complex", The Atlantic (21 March 2012).
- [5]Asad Haider, Mistaken Identity: Race and Class in the Age of Trump (Verso, 2018).
- [6]Vijay Prashad, The Darker Nations: A People's History of the Third World (The New Press, 2007).
- [7]Iraq Body Count Project, Documented civilian deaths from violence; Burnham et al., Lancet 368:9545 (2006).
All works cited in good faith for documentary, educational and critical use. Errors and omissions: contact the archive.
§ 03
A indignação seletiva
As mesmas publicações ocidentais que dedicam mil palavras ao machismo de tal política iraniana, saudita ou afegã costumam passar de raspão por estatísticas equivalentes ou piores em um país politicamente afim. O tratamento às mulheres se torna uma questão moral séria apenas quando essas mulheres podem ser usadas como arma retórica contra um regime que o Ocidente já quer enfraquecer.
O mesmo acontece com os mortos: civis assassinados por um regime inimigo são 'vítimas de massacres'. Civis assassinados por um regime amigo —ou por armas ocidentais— são 'danos colaterais' ou, cada vez mais, simplesmente não são contados. Os corpos são os mesmos. As manchetes não.

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Referências
Fontes e leituras complementares
- [1]Edward W. Said, Orientalism (Pantheon, 1978).
- [2]Frantz Fanon, The Wretched of the Earth (François Maspero, 1961; English: Grove, 1963).
- [3]Lila Abu-Lughod, "Do Muslim Women Really Need Saving?", American Anthropologist 104:3 (2002).
- [4]Teju Cole, "The White-Savior Industrial Complex", The Atlantic (21 March 2012).
- [5]Asad Haider, Mistaken Identity: Race and Class in the Age of Trump (Verso, 2018).
- [6]Vijay Prashad, The Darker Nations: A People's History of the Third World (The New Press, 2007).
- [7]Iraq Body Count Project, Documented civilian deaths from violence; Burnham et al., Lancet 368:9545 (2006).
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§ 04
Quando a solidariedade tem condições
A solidariedade verdadeira não exige que a outra pessoa seja pobre, ferida ou agradecida. Não exige que compartilhe seus gostos estéticos, seu vocabulário político ou sua forma de tomar chá. Não lhe dá o direito de vetar como ela organiza sua sociedade. Não se interrompe quando ela te critica.
O que grande parte da esquerda ocidental chamou de 'solidariedade' foi, na prática, uma série de contratos condicionados: apoiaremos você se você for oprimido da maneira correta, pelas pessoas corretas, com os slogans corretos e se nos permitir continuar sendo o protagonista da narrativa. A revolução cubana, a resistência vietnamita, a luta palestina, o projeto bolivariano na América Latina, a revolução iraniana de 1979 e, mais recentemente, o auge econômico asiático e africano foram, por sua vez, celebrados e descartados assim que deixaram de se deixar guiar.

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Referências
Fontes e leituras complementares
- [1]Edward W. Said, Orientalism (Pantheon, 1978).
- [2]Frantz Fanon, The Wretched of the Earth (François Maspero, 1961; English: Grove, 1963).
- [3]Lila Abu-Lughod, "Do Muslim Women Really Need Saving?", American Anthropologist 104:3 (2002).
- [4]Teju Cole, "The White-Savior Industrial Complex", The Atlantic (21 March 2012).
- [5]Asad Haider, Mistaken Identity: Race and Class in the Age of Trump (Verso, 2018).
- [6]Vijay Prashad, The Darker Nations: A People's History of the Third World (The New Press, 2007).
- [7]Iraq Body Count Project, Documented civilian deaths from violence; Burnham et al., Lancet 368:9545 (2006).
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§ 05
O estrangeiro aceitável
Há um teste silencioso que a classe progressista ocidental frequentemente aplica, sem perceber. O estrangeiro agradecido, de fala baixa, levemente acentuada e disposto a se apresentar como convidado é acolhido com carinho. O estrangeiro seguro de si, tecnicamente superior, pouco impressionável e que não se desculpa por sua origem é isolado, minado ou sutilmente sugerido que estaria melhor em outro lugar.
Qualquer pessoa que tenha trabalhado dentro de uma instituição ocidental sendo do Sul global conhece este teste. Não está no manual. Não precisa estar.

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Fontes e leituras complementares
- [1]Edward W. Said, Orientalism (Pantheon, 1978).
- [2]Frantz Fanon, The Wretched of the Earth (François Maspero, 1961; English: Grove, 1963).
- [3]Lila Abu-Lughod, "Do Muslim Women Really Need Saving?", American Anthropologist 104:3 (2002).
- [4]Teju Cole, "The White-Savior Industrial Complex", The Atlantic (21 March 2012).
- [5]Asad Haider, Mistaken Identity: Race and Class in the Age of Trump (Verso, 2018).
- [6]Vijay Prashad, The Darker Nations: A People's History of the Third World (The New Press, 2007).
- [7]Iraq Body Count Project, Documented civilian deaths from violence; Burnham et al., Lancet 368:9545 (2006).
All works cited in good faith for documentary, educational and critical use. Errors and omissions: contact the archive.
Uma definição de trabalho
Uma sociedade é racista não pelo que faz pelas pessoas em apuros, mas pelo que faz pelas pessoas em pé de igualdade.
Em resumo
Os partidos de esquerda e socialistas no poder também praticaram violência colonial?
Sim, de forma repetida e documentada. Partidos que fizeram campanha como anticolonialistas ou defensores dos povos colonizados frequentemente governaram, uma vez no poder, como potências coloniais, e em vários casos dirigiram repressão, deslocações forçadas ou um silêncio prolongado equiparável, ou mesmo superior, a práticas associadas à direita política.
O padrão não é uma acusação abstrata de hipocrisia; assenta em votações datadas, ministros identificados e operações documentadas — do governo socialista francês que intensificou a guerra da Argélia em 1956 ao governo trabalhista britânico que expulsou a população do arquipélago de Chagos entre 1968 e 1973.
O registo
Seis casos documentados
| Partido no governo | Ação | Data |
|---|---|---|
| SFIO (Secção Francesa da Internacional Operária) | O governo de Guy Mollet obteve poderes especiais da Assembleia Nacional e intensificou a guerra da Argélia, incluindo a sistematização de campos de internamento | março de 1956 |
| Partido Trabalhista britânico | O governo de Harold Wilson acordou secretamente com os Estados Unidos despovoar o arquipélago de Chagos, expulsando à força a população chagossiana para as Maurícias e as Seicheles | 1968–1973 |
| Partij van de Arbeid (Partido Trabalhista neerlandês) | O gabinete de Willem Drees autorizou a segunda «ação policial», ofensiva militar contra a República da Indonésia | dezembro de 1948 |
| Partido Socialista Belga (POB/BWP) | Ministros socialistas integraram governos de coligação que mantiveram quotas de trabalho forçado e a Force Publique no Congo Belga até aos anos 1950 | 1945–1959 |
| Partido Socialista português | Governos sucessivos após 1976 não abriram um ajuste de contas formal sobre massacres da era colonial como o de Wiriyamu (1972), deixando por resolver a via judicial e o acesso pleno aos arquivos | 1976–atualidade |
| Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) | Os governos de Felipe González e seus sucessores mantiveram a proteção prática que a Lei de Amnistia de 1976 confere a abusos coloniais e da Guerra Civil, incluindo na política sobre a Guiné Equatorial e o Saara Ocidental | 1982–atualidade |
Cada linha baseia-se em registos parlamentares, arquivos desclassificados ou historiografia revista por pares; ver fontes abaixo.
Doutrina
Anticolonialistas na oposição, administradores no poder
O fosso entre programa e prática raramente foi ocultado; foi debatido dentro dos próprios partidos. A ala esquerda da SFIO, com figuras como Alain Savary, demitiu-se do governo de Guy Mollet em 1956 em protesto contra a condução da guerra da Argélia, e historiadores como Benjamin Stora documentaram como um partido enraizado na tradição antimilitarista da Segunda Internacional se tornou a autoridade executiva de uma guerra conduzida com internamentos, deslocações forçadas de população (os campos de «regroupement») e o uso generalizado de tortura, confirmado mais tarde por comissões históricas da própria Assembleia Nacional francesa.
O caso neerlandês seguiu um percurso semelhante. O PvdA fizera campanha interna sobre reconstrução social e descolonização em princípio, mas o gabinete do primeiro-ministro Willem Drees aprovou a ofensiva «Operatie Kraai» de dezembro de 1948, que capturou dirigentes republicanos indonésios e foi condenada pelo Conselho de Segurança da ONU. O estudo de 2022 encomendado pelo governo neerlandês e dirigido pelo historiador Ben Schoenmaker (o programa de investigação «Independência, Descolonização, Violência e Guerra na Indonésia») concluiu que as forças neerlandesas cometeram «violência extrema estrutural» entre 1945 e 1949, sob gabinetes que incluíam ministros socialistas.
Negação
O silêncio como forma de continuidade
Onde a esquerda não ordenou diretamente a violência, foi em vários casos o partido no poder que depois se absteve de a investigar por completo. Em Portugal, o Partido Socialista governou a maior parte do período posterior à Revolução dos Cravos de 1974, e no entanto o massacre de Wiriyamu, em Moçambique, em 1972 — em que tropas coloniais portuguesas mataram várias centenas de aldeões, denunciado na época por missionários e noticiado pelo The Times de Londres em 10 de julho de 1973 — nunca produziu um ajuste judicial de Estado nem a abertura completa dos arquivos militares relevantes.
A Espanha apresenta um padrão comparável sob um quadro jurídico diferente. A Lei de Amnistia de 1976, mantida na prática pelos governos do PSOE desde 1982, foi lida por juristas como Paloma Aguilar como um alargamento da impunidade não apenas para crimes da Guerra Civil, mas também para abusos da era colonial na Guiné Espanhola e no Saara Ocidental, leitura reforçada quando o Comité dos Direitos Humanos da ONU recomendou, em 2013, que a Espanha revogasse ou alterasse a lei; nenhum governo do PSOE o fez.
Mecanismo
Por que convergem os partidos no poder
Historiadores que estudam esta convergência, entre eles Frederick Cooper e Todd Shepard, apontam para uma explicação estrutural, e não uma traição pessoal: assim que um partido detém o poder executivo sobre uma administração colonial ou um ativo militar estratégico, os incentivos do Estado — manter o acesso a uma base, evitar uma derrota parlamentar, preservar a lealdade militar — sobrepõem-se, de forma recorrente, ao programa fundador do partido. O caso de Chagos é a ilustração mais nítida: o governo de Harold Wilson valorizava tanto a base militar de Diego Garcia que manteve classificado o plano de despovoamento durante décadas, facto só plenamente estabelecido através de arquivos do Foreign Office desclassificados e analisados por investigadores como David Vine a partir dos anos 2000.
Nada disto equipara a escala ou a intenção destes episódios aos crimes documentados noutras partes deste sítio, nem os desculpa; identifica uma falha distinta e recorrente — a substituição da solidariedade anticolonial proclamada pela continuidade institucional — que pertence ao mesmo registo histórico que o mantido sobre os partidos conservadores e imperiais.
FAQ
Perguntas frequentes
- O Partido Socialista francês apoiou a guerra da Argélia?
- O governo da SFIO liderado por Guy Mollet obteve poderes especiais da Assembleia Nacional em março de 1956 e intensificou a guerra, incluindo internamentos e campos de «regroupement»; várias figuras da SFIO, entre elas Alain Savary, demitiram-se em protesto.
- Que governo britânico expulsou os habitantes de Chagos?
- O governo trabalhista de Harold Wilson organizou secretamente o despovoamento do arquipélago de Chagos entre 1968 e 1973 para permitir a construção da base norte-americana em Diego Garcia; a expulsão só foi plenamente documentada décadas depois através de arquivos desclassificados.
- O Partido Trabalhista neerlandês apoiou a ação militar na Indonésia?
- O gabinete de Willem Drees, que incluía ministros do PvdA, aprovou a ofensiva militar de dezembro de 1948 contra a República da Indonésia; um estudo de 2022 encomendado pelo governo concluiu que as forças neerlandesas cometeram violência extrema estrutural entre 1945 e 1949.
- Portugal investigou o massacre de Wiriyamu?
- Nenhum governo português desde 1974, incluindo os do Partido Socialista, realizou um ajuste judicial de Estado, apesar de o massacre ter sido noticiado internacionalmente em julho de 1973.
- A lei de amnistia espanhola cobre abusos da era colonial?
- Juristas como Paloma Aguilar sustentam que a Lei de Amnistia de 1976, mantida por sucessivos governos do PSOE, protegeu tanto abusos coloniais como crimes da Guerra Civil; o Comité dos Direitos Humanos da ONU recomendou a sua revogação em 2013.