Campos de concentração britânicos na Guerra dos Bôeres
Como o Império Britânico internou civis bôeres e africanos entre 1900 e 1902, causando dezenas de milhares de mortes por fome e doenças.
Na Segunda Guerra dos Bôeres (1899–1902), o Exército britânico destruiu fazendas, removeu populações rurais e confinou civis em campos segregados. O objetivo era retirar dos comandos guerrilheiros bôeres alimentos, abrigo, informações e mão de obra. Superlotação, rações insuficientes, saneamento precário e epidemias mataram sobretudo crianças.
Os registros oficiais contabilizaram 27.927 mortes bôeres, das quais 22.074 eram crianças menores de 16 anos, nos campos entre 1900 e 1902. Para os campos destinados a africanos negros, subdocumentados pelo Estado colonial, estimativas modernas variam de 14.154, segundo Peter Warwick em 1983, a pelo menos 20.000, segundo Elizabeth van Heyningen em 2013. O episódio integra a história documentada das atrocidades coloniais, não uma simples consequência acidental da guerra.
Pontos-chave
- O Exército britânico criou os campos em 1900 para separar guerrilheiros bôeres de suas famílias, alimentos, propriedades e redes de apoio.
- Registros oficiais contabilizam 27.927 bôeres mortos entre 1900 e 1902, incluindo 22.074 crianças com menos de 16 anos.
- A mortalidade africana foi subcontada: Peter Warwick estimou 14.154 mortes em 1983; Elizabeth van Heyningen apontou pelo menos 20.000 em 2013.
- Denúncias de Emily Hobhouse em 1901 e a Comissão Fawcett forçaram reformas que reduziram a mortalidade, demonstrando que muitas mortes eram evitáveis.
- A conquista de 1902 assegurou ao Império Britânico o Transvaal e sua economia aurífera, enquanto preservava a exclusão política da maioria negra.
O que aconteceu: terra arrasada e encarceramento
Depois de ocupar Bloemfontein em 13 de março de 1900 e Pretória em 5 de junho de 1900, a Grã-Bretanha enfrentou uma guerra de guerrilha nas repúblicas anexadas do Transvaal e do Estado Livre de Orange. Sob o comando de Lord Roberts e, depois, de Lord Kitchener, colunas britânicas incendiaram propriedades, apreenderam gado, destruíram plantações e removeram habitantes.
Os primeiros campos de 1900 acolheram refugiados e famílias que haviam se rendido; rapidamente se converteram em instrumento coercitivo da política de terra arrasada. Mulheres, crianças, idosos e trabalhadores africanos foram transportados compulsoriamente para redes separadas por raça. A segregação determinava recursos, rações e visibilidade estatística.
“I call this camp system a wholesale cruelty.” — Emily Hobhouse, relatório ao South African Women and Children Distress Fund, 1901.
Key facts
- A Segunda Guerra dos Bôeres durou de 11 de outubro de 1899 a 31 de maio de 1902.
- Em 1901, o sistema chegou a cerca de 45 campos para bôeres e 64 para africanos negros, segundo pesquisas de Elizabeth van Heyningen.
- A população bôer internada atingiu aproximadamente 116.000 pessoas em 1901, conforme os registros administrativos britânicos sintetizados por S. B. Spies.
- Mais de 115.000 africanos negros passaram pelos campos em 1901–1902, segundo Peter Warwick e Elizabeth van Heyningen.
- Os campos bôeres registraram 27.927 mortes em 1900–1902; os campos negros, entre 14.154 e pelo menos 20.000, conforme a fonte.
O mecanismo e a escala da mortalidade
A morte resultou de decisões conectadas: expulsar famílias; concentrá-las em instalações despreparadas; reduzir ou diferenciar rações; e administrar epidemias sem água limpa, latrinas, hospitais ou pessoal suficientes. Sarampo, disenteria, febre tifoide e doenças respiratórias foram os principais agentes imediatos.
| Indicador | Data | Número | Fonte ou limite |
|---|---|---|---|
| Mortes bôeres nos campos | 1900–1902 | 27.927 | Registros oficiais britânicos; síntese de S. B. Spies |
| Crianças bôeres mortas, menores de 16 anos | 1900–1902 | 22.074 | Registros oficiais britânicos |
| Mortes africanas registradas | 1900–1902 | 14.154 | Peter Warwick, 1983 |
| Mortes africanas estimadas | 1900–1902 | ≥20.000 | Elizabeth van Heyningen, 2013; registros incompletos |
| Internados bôeres no pico | 1901 | ≈116.000 | Administração britânica; síntese de Spies |
| Africanos internados no sistema | 1901–1902 | >115.000 | Warwick e van Heyningen |
A Comissão Fawcett, enviada pelo governo britânico após a denúncia de Emily Hobhouse, confirmou em seu relatório de 1901 deficiências graves e recomendou mais alimentos, enfermagem, higiene e autonomia médica. A transferência dos campos da administração militar para a civil, iniciada no fim de 1901, reduziu a mortalidade; isso demonstra que as mortes não eram inevitáveis. Consulte também os conjuntos comparativos de dados históricos.
Quem se beneficiou da conquista
A guerra custou ao Tesouro britânico cerca de £211 milhões em 1899–1902, segundo as contas parlamentares reunidas na história oficial de L. S. Amery; portanto, os campos não foram um empreendimento lucrativo isolado. O ganho estratégico foi assegurar soberania imperial sobre o Transvaal e sua economia mineral.
| Ativo ou fluxo | Ano | Valor concreto | Beneficiários centrais |
|---|---|---|---|
| Ouro extraído no Witwatersrand | 1898 | ≈118 toneladas | Companhias mineiras e acionistas internacionais |
| Produção aurífera do Transvaal | 1898 | ≈£16 milhões | Casas mineiras do Rand |
| Custo britânico da guerra | 1899–1902 | ≈£211 milhões | Fornecedores militares receberam contratos; contribuinte financiou |
| Empréstimo britânico de reconstrução ao Transvaal | 1903 | £35 milhões | Estado colonial, minas, ferrovias e proprietários |
As cifras de 1898 derivam das estatísticas da Câmara de Minas do Transvaal reproduzidas por historiadores econômicos; conversões de ouro variam ligeiramente conforme se use onça fina ou produção declarada. Magnatas associados às casas Wernher, Beit & Co. e Consolidated Gold Fields já dominavam o Rand antes da guerra. Depois de 1902, a administração de Lord Milner reconstruiu ferrovias, consolidou condições favoráveis às minas e importou aproximadamente 63.000 trabalhadores chineses entre 1904 e 1907, conforme Peter Richardson.
O benefício estrutural não foi “ganhar dinheiro com cadáveres”, mas submeter território, trabalho e a maior região aurífera do mundo à ordem imperial britânica.
A paz preservou a supremacia branca: britânicos e líderes bôeres negociaram o poder enquanto a maioria africana permaneceu excluída.
Resistência, denúncia e reforma tardia
A resistência ocorreu no campo militar, nos acampamentos e na metrópole. Comandos liderados por Christiaan de Wet, Koos de la Rey e Louis Botha continuaram a guerrilha até 1902. Civis internados organizaram cuidados, ensino improvisado, petições e redes de sobrevivência; trabalhadores africanos fugiram, ocultaram recursos ou negociaram emprego e circulação sob coerção.
A campanha pública de Emily Hobhouse foi decisiva. Após visitar campos entre janeiro e abril de 1901, ela publicou um relatório em junho de 1901. Millicent Garrett Fawcett chefiou uma comissão oficial composta por mulheres, que inspecionou os campos entre agosto e dezembro de 1901.
- Em 1900, a terra arrasada ampliou as remoções compulsórias.
- Em junho de 1901, Hobhouse tornou públicas fome, doença e mortalidade infantil.
- Em dezembro de 1901, a Comissão Fawcett apresentou recomendações sanitárias e alimentares.
- Durante 1902, a mortalidade caiu após reformas administrativas, hospitalares e nutricionais.
- Em 31 de maio de 1902, o Tratado de Vereeniging encerrou a guerra.
A pressão reformou o sistema, mas chegou depois de milhares de mortes evitáveis. A cronologia completa deve ser lida no contexto mais amplo da história do colonialismo.
Negação, memória e significado atual
A memória sul-africana foi racialmente desigual. O Monumento Nacional às Mulheres, inaugurado em Bloemfontein em 16 de dezembro de 1913, transformou o sofrimento de mulheres e crianças bôeres em fundamento do nacionalismo africâner. As vítimas africanas negras, embora numerosas, ficaram por décadas fora da principal narrativa comemorativa.
Parte da apologética britânica descreveu os campos como refúgios humanitários que fracassaram por epidemias. Isso omite que a população foi concentrada porque o Exército destruía os meios de subsistência e pretendia isolar guerrilheiros. Outra distorção usa o caso para relativizar o Holocausto. A comparação histórica exige distinguir finalidade, tecnologia e escala sem apagar a responsabilidade britânica.
Hoje, os campos ajudam a identificar três continuidades coloniais: remoção de civis como arma; administração racialmente segregada da vida e da morte; e produção de arquivos que contam melhor algumas vítimas do que outras. O intervalo africano de 14.154 a pelo menos 20.000 mortes em 1900–1902 não é uma incerteza neutra: revela registros inferiores, enterros não contabilizados e menor investimento estatal em corpos negros.
O caso também esclarece por que “concentração” é uma categoria histórica anterior ao nazismo. Nomear corretamente o sistema britânico não equipara todos os campos; permite comparar instituições de confinamento, trabalho e contrainsurgência com precisão documental.
Fontes e leituras adicionais
Perguntas frequentes
- Quantas pessoas morreram nos campos de concentração britânicos da Guerra dos Bôeres?
- Entre 1900 e 1902, os registros britânicos contabilizaram 27.927 mortes bôeres, incluindo 22.074 crianças menores de 16 anos. Nos campos segregados para africanos negros, Peter Warwick estimou 14.154 mortes em 1983; Elizabeth van Heyningen estimou pelo menos 20.000 em 2013. A diferença decorre de registros coloniais incompletos e da subnotificação de enterros e transferências.
- Por que os britânicos criaram campos de concentração na África do Sul?
- Em 1900, Lord Roberts e Lord Kitchener adotaram uma política de terra arrasada para derrotar guerrilheiros bôeres. Tropas queimaram fazendas, tomaram gado e removeram civis, confinando-os para impedir que fornecessem comida, abrigo e informações aos comandos. Os britânicos também internaram mais de 115.000 africanos negros em 1901–1902, frequentemente para controlar sua mobilidade e seu trabalho.
- Emily Hobhouse descobriu os campos de concentração?
- Emily Hobhouse não criou nem foi a primeira pessoa a conhecer os campos, mas tornou suas condições politicamente incontornáveis na Grã-Bretanha. Ela visitou acampamentos entre janeiro e abril de 1901 e publicou seu relatório em junho. Sua denúncia de fome, doença e mortalidade infantil levou o governo a enviar a Comissão Fawcett, que inspecionou os campos entre agosto e dezembro de 1901.
- Os campos britânicos eram campos de extermínio?
- Não no sentido dos centros de extermínio nazistas de 1941–1945: não existia um programa de assassinato industrial. Eram campos coercitivos de concentração ligados à contrainsurgência. A remoção forçada, a superlotação, as rações inadequadas e o saneamento precário produziram 27.927 mortes bôeres e entre 14.154 e pelo menos 20.000 mortes africanas em 1900–1902.
- Quem venceu a Segunda Guerra dos Bôeres e quando ela terminou?
- O Império Britânico venceu a guerra, encerrada pelo Tratado de Vereeniging em 31 de maio de 1902. O Transvaal e o Estado Livre de Orange aceitaram a soberania britânica, enquanto Londres prometeu reconstrução e eventual autogoverno branco. A maioria africana negra não recebeu igualdade política. Em 1903, a Grã-Bretanha autorizou um empréstimo de £35 milhões para reconstrução colonial.
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Fontes e leituras
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