Nakba: expulsão e despossessão palestina em 1948
Guia histórico da Nakba: expulsões de 1948, aldeias destruídas, refugiados, massacres, confisco de terras, resistência, memória e retorno.

A Nakba — “catástrofe”, em árabe — foi a expulsão em massa e a despossessão dos árabes palestinos durante a guerra de 1947–1949. Forças sionistas e, depois de 14 de maio de 1948, o Estado de Israel esvaziaram cidades e aldeias, impediram o retorno dos habitantes e transferiram terras e casas para controle judaico-israelense.
Cerca de 750 mil palestinos tornaram-se refugiados, segundo a estimativa histórica adotada pela ONU; estudos situam o total de comunidades despovoadas ou destruídas entre aproximadamente 400 e 530. A Nakba não designa apenas fuga em combate: compreende expulsões diretas, ataques, massacres, guerra psicológica, demolição, confisco legalizado e negação continuada do retorno.
Pontos-chave
- A Nakba expulsou aproximadamente 750 mil palestinos entre 1947 e 1949 e converteu a maior parte deles em refugiados sem direito de retorno.
- Forças sionistas e israelenses empregaram ataques, expulsões, massacres, intimidação e demolição para despovoar centenas de comunidades palestinas em 1948.
- Leis israelenses de 1950 e 1953 transformaram a despossessão de guerra em transferência institucional de milhões de dunams de terras palestinas.
- A Resolução 194 da ONU, aprovada em 1948, defendeu retorno e indenização, mas Israel recusou o retorno coletivo dos refugiados.
- A Nakba continua politicamente presente porque milhões de refugiados permanecem deslocados e novas expropriações reproduzem mecanismos de fragmentação e remoção.
O que aconteceu e como funcionou a expulsão
A Assembleia Geral da ONU aprovou a partilha da Palestina sob Mandato Britânico em 29 de novembro de 1947, pela Resolução 181. Embora judeus fossem cerca de 33% da população em 1947, o plano atribuiu ao Estado judeu proposto aproximadamente 55% do território. A guerra civil começou imediatamente; a intervenção de exércitos árabes ocorreu após a declaração israelense de 14 de maio de 1948.
A Haganá, o Palmach, o Irgun e o Lehi atacaram centros populacionais e rotas estratégicas. O Plano Dalet, adotado pela Haganá em março de 1948, autorizava ocupar localidades e expulsar habitantes quando houvesse resistência. A execução variou: expulsão militar direta em Lida e Ramla; fuga sob bombardeio em Haifa e Jafa; intimidação após atrocidades como Deir Yassin; proibição de retorno; e destruição posterior das casas.
“Os habitantes devem ser expulsos sem consideração de idade.” — Yitzhak Rabin, relatando em suas memórias uma ordem para Lida e Ramla, julho de 1948, The Rabin Memoirs; a passagem foi inicialmente censurada em Israel.
- Novembro de 1947–março de 1948: ataques, cercos e deslocamentos durante a guerra civil.
- Abril–maio de 1948: ofensivas sionistas capturam Haifa, Jafa, Safed, Tiberíades e dezenas de aldeias.
- Maio de 1948–janeiro de 1949: o Exército israelense amplia o território sob seu controle e expulsa novas populações.
- Após 1948: leis, demolições e assentamento de imigrantes impedem o retorno e consolidam a apropriação.
Os números da Nakba
Não existe um cadastro único de cada expulsão. Arquivos militares, registros britânicos, levantamentos da ONU e história oral produzem diferenças de método. Ainda assim, a escala geral é bem estabelecida.
| Indicador | Número e ano | Fonte ou faixa |
|---|---|---|
| Palestinos deslocados | cerca de 750.000, 1947–1949 | estimativa histórica da ONU; Benny Morris calculou 700.000–750.000 |
| Comunidades despovoadas | 418, 1948 | Walid Khalidi, All That Remains, 1992 |
| Localidades destruídas ou despovoadas | mais de 500, 1948 | Salman Abu Sitta, levantamento publicado desde 1998 |
| Palestinos mortos na guerra | cerca de 10.000–15.000, 1947–1949 | faixa recorrente na historiografia, com registros incompletos |
| Refugiados registrados na UNRWA | 5,9 milhões, 2022 | UNRWA; inclui descendentes elegíveis em cinco campos de operação |
Consulte também os conjuntos de dados históricos e o catálogo de atrocidades documentadas.
Massacres, propriedades confiscadas e beneficiários
A violência contra civis acelerou o êxodo. Em Deir Yassin, Irgun e Lehi mataram aproximadamente 100–120 pessoas em 9 de abril de 1948, conforme a faixa aceita por estudos posteriores; números iniciais chegaram a 254 em 1948, cifra divulgada por atacantes e autoridades árabes. Em Tantura, pesquisas baseadas em testemunhos e arquivos estimam 40–200 mortos em maio de 1948, faixa ainda disputada.
| Local e evento | Data | Mortos ou expulsos |
|---|---|---|
| Deir Yassin | 9 abr. 1948 | cerca de 100–120 mortos, estudos posteriores |
| Lida e Ramla | 12–14 jul. 1948 | aproximadamente 50.000–70.000 expulsos, Benny Morris e outros historiadores |
| Al-Dawayima | 29 out. 1948 | estimativas de 80–200 mortos, arquivos e testemunhos compilados por historiadores |
| Jafa | abril–maio de 1948 | população árabe reduzida de cerca de 70.000 para 3.000–4.000 |
Quem ganhou materialmente foi o novo Estado israelense e suas instituições fundiárias, além dos novos ocupantes de imóveis palestinos. O Custodiante da Propriedade dos Ausentes administrou casas, pomares, contas e terras. A Lei da Propriedade dos Ausentes de 1950 formalizou transferências; a Lei de Aquisição de Terras de 1953 consolidou expropriações. A historiadora israelense Anat Kedar e outros pesquisadores calculam que palestinos perderam aproximadamente 4,2–5,8 milhões de dunams até 1953 — 4.200–5.800 km² — dependendo das categorias incluídas.
A Autoridade de Desenvolvimento, o Fundo Nacional Judaico, cooperativas e municípios receberam ou administraram parte desses bens. Imigrantes judeus foram instalados em casas palestinas vazias; novas localidades reutilizaram terras agrícolas, pedras e infraestrutura. Isso não torna refugiados judeus vindos de países árabes responsáveis pela expulsão: a política de apropriação foi estatal e institucional.
Resistência, retorno e sobrevivência nacional
Palestinos resistiram militarmente em 1947–1949, tentaram regressar às colheitas e casas, preservaram escrituras e chaves, organizaram sindicatos, partidos, associações de refugiados e produção cultural. Israel classificou muitos retornados como “infiltrados”; entre 1949 e 1956, forças israelenses mataram aproximadamente 2.700–5.000 infiltrados, segundo faixas citadas por Benny Morris, incluindo pessoas desarmadas que buscavam família, propriedade ou alimento.
A Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU decidiu, em 11 de dezembro de 1948, que refugiados desejosos de “retornar aos seus lares e viver em paz com seus vizinhos” deveriam poder fazê-lo “na data mais próxima possível”, com indenização aos que não retornassem.
Fatos-chave
- A Nakba começou antes da criação formal de Israel, durante a guerra civil iniciada em novembro de 1947.
- Aproximadamente 750 mil palestinos foram deslocados entre 1947 e 1949, dentro e além das fronteiras da Palestina.
- Israel recusou o retorno em massa desde 1948, apesar da Resolução 194 e de reivindicações reiteradas.
- A UNRWA foi criada pela Resolução 302 em 8 de dezembro de 1949 e iniciou operações em 1º de maio de 1950.
- A identidade nacional sobreviveu por organização política, memória familiar, educação, literatura e resistência nos campos e na diáspora.
Para uma cronologia mais ampla, veja a história do colonialismo e da resistência.
Negação, memória e disputa historiográfica
A narrativa oficial israelense por décadas atribuiu o êxodo principalmente a ordens de líderes árabes. A documentação aberta a partir dos anos 1980 demonstrou múltiplas causas, com papel central das operações militares israelenses, expulsões e medo de ataques. Benny Morris confirmou numerosas expulsões em The Birth of the Palestinian Refugee Problem, de 1988, embora rejeite caracterizar todo o processo como plano prévio uniforme. Ilan Pappé, em 2006, definiu-o como limpeza étnica planejada; Walid Khalidi já havia cartografado sistematicamente as localidades em 1992.
A ausência de uma ordem única para cada aldeia não elimina o padrão: forças armadas produziram o deslocamento; o governo decidiu em junho de 1948 barrar o retorno; propriedades foram transferidas; centenas de localidades foram apagadas ou renomeadas. Memória oral, arquivos, cemitérios e ruínas corrigem aquilo que mapas e parques nacionais ocultaram.
Em Israel, a chamada “Lei da Nakba”, emenda orçamentária aprovada em 2011, permite reduzir financiamento público de instituições que tratem o Dia da Independência como luto. A medida não criminaliza diretamente a palavra, mas cria sanção financeira e efeito intimidatório. Preservar documentação é, portanto, parte da disputa por evidência, linguagem e responsabilidade.
O que a Nakba significa hoje
A Nakba permanece uma estrutura política porque refugiados e descendentes continuam sem retorno, enquanto deslocamentos, demolições, revogações de residência, expansão de assentamentos e confiscos prosseguem. Em 2022, a UNRWA registrava cerca de 5,9 milhões de refugiados palestinos na Jordânia, Líbano, Síria, Cisjordânia e Faixa de Gaza. O registro administrativo não equivale ao total mundial de descendentes deslocados.
A linha de armistício de 1949 deixou Israel com aproximadamente 78% da Palestina sob Mandato, ante cerca de 55% previsto para o Estado judeu na partilha de 1947. A Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, e Gaza foram ocupadas por Israel em junho de 1967. A continuidade não significa que todos os episódios sejam idênticos; significa que impunidade, fragmentação territorial e negação de direitos permanecem conectadas.
Reconhecer a Nakba exige mais que memória simbólica: localização de propriedades, abertura de arquivos, proteção de locais destruídos, reparação, restituição ou indenização e solução baseada nos direitos dos refugiados. Nenhuma análise séria pode reduzir uma expulsão coletiva documentada a consequência acidental da guerra.
Fontes e leituras complementares
- Walid Khalidi, All That Remains — Institute for Palestine Studies
- Benny Morris, 1948: A History of the First Arab-Israeli War — Yale University Press
- Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine — Oneworld
- UNRWA — quem são os refugiados palestinos
- ONU — Resolução 194 da Assembleia Geral, 1948
- Encyclopaedia Britannica — Palestine war and the Nakba
Perguntas frequentes
- O que foi a Nakba palestina de 1948?
- A Nakba foi a expulsão e despossessão em massa dos árabes palestinos durante a guerra de 1947–1949. Forças sionistas e, desde 14 de maio de 1948, israelenses esvaziaram centenas de localidades por ataques, expulsões diretas e intimidação. Cerca de 750 mil palestinos tornaram-se refugiados; Israel bloqueou seu retorno e transferiu casas e terras para controle estatal e judaico-israelense.
- Quantos palestinos foram expulsos na Nakba?
- A estimativa histórica adotada pela ONU é de aproximadamente 750 mil palestinos deslocados entre 1947 e 1949. Benny Morris situa o total entre 700 mil e 750 mil. O número abrange pessoas expulsas diretamente e aquelas que fugiram de bombardeios, massacres ou colapso social e depois foram impedidas por Israel de regressar às casas e propriedades.
- Quantas aldeias palestinas foram destruídas em 1948?
- O total depende da definição. Walid Khalidi catalogou 418 comunidades despovoadas em seu estudo de 1992. Salman Abu Sitta contabilizou mais de 500 a partir de levantamentos publicados desde 1998, incluindo localidades menores e áreas tribais. Muitas foram demolidas após 1948; outras receberam novos nomes, foram incorporadas a cidades israelenses ou cobertas por florestas e parques.
- Os líderes árabes mandaram os palestinos abandonar suas casas?
- Não há evidência de uma ordem árabe geral de retirada em 1948. Arquivos examinados desde os anos 1980 mostram causas diversas, sobretudo ataques militares, expulsões, medo após massacres e colapso administrativo. Em alguns lugares houve evacuações locais, mas forças israelenses executaram expulsões documentadas, como as de 50 mil a 70 mil habitantes de Lida e Ramla em julho de 1948.
- Os refugiados palestinos têm direito de retorno?
- A Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU, aprovada em 11 de dezembro de 1948, afirmou que refugiados dispostos a viver em paz deveriam retornar na data mais próxima possível e que outros deveriam ser indenizados. Israel recusou o retorno coletivo desde junho de 1948. Em 2022, a UNRWA registrava cerca de 5,9 milhões de refugiados palestinos e descendentes elegíveis.
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Fontes e leituras
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