UNSILENCED.

Sykes–Picot e a partilha colonial do Oriente Médio

Como Reino Unido e França negociaram o Sykes–Picot em 1916, dividiram províncias otomanas e construíram mandatos coloniais após a guerra.

Sykes–Picot e a partilha colonial do Oriente Médio
Wikimedia Commons / Wikipedia — Sykes–Picot Agreement

O Acordo Sykes–Picot foi um pacto secreto concluído em 1916 por Reino Unido e França, com anuência da Rússia, para repartir províncias árabes do Império Otomano em zonas de controle direto ou influência. Mark Sykes e François Georges-Picot desenharam o esquema enquanto Londres também fazia promessas incompatíveis a lideranças árabes e negociava a Palestina com o movimento sionista.

Sykes–Picot não criou sozinho todas as fronteiras atuais. Guerra, ocupação militar, petróleo, revoltas locais, San Remo e os mandatos da Liga das Nações alteraram o plano. Mas o acordo expôs o mecanismo central: potências imperiais decidindo soberania, recursos e rotas sem consentimento das populações afetadas.

Pontos-chave

  • O acordo secreto de 1916 repartiu influência britânica e francesa sobre províncias árabes otomanas sem consultar suas populações.
  • San Remo, em 1920, e os mandatos vigentes em 1923 converteram a ocupação militar em domínio colonial internacionalmente autorizado.
  • A ordem mandatária assegurou rotas, bases e concessões petrolíferas, incluindo a participação francesa de 25% negociada em 1920.
  • Revoltas no Iraque, Síria e Palestina enfrentaram bombardeios, punições coletivas, prisões e milhares de mortes entre 1920 e 1939.
  • Sykes–Picot permanece um símbolo válido da partilha imperial, mas não explica sozinho todas as fronteiras ou guerras posteriores.

O que aconteceu: diplomacia secreta e ocupação

As negociações começaram em novembro de 1915 e culminaram na troca de notas de 9 e 16 de maio de 1916. Londres e Paris previram controle francês direto no litoral sírio e na Cilícia, controle britânico direto na Mesopotâmia meridional e zonas interiores destinadas a um Estado ou confederação árabe sob predominância econômica francesa ou britânica. A Palestina teria administração internacional, cuja forma não foi definida.

“That France and Great Britain are prepared to recognize and protect an independent Arab State or a Confederation of Arab States.” — Sir Edward Grey, nota diplomática britânica que incorporou o Acordo Sykes–Picot, 16 de maio de 1916.

A fórmula prometia reconhecer uma entidade árabe, mas reservava às potências direitos prioritários sobre empréstimos, ferrovias, portos, assessores e administração. A correspondência Hussein–McMahon, composta por 10 cartas entre 14 de julho de 1915 e 10 de março de 1916, já alimentava expectativas de independência árabe em troca da revolta contra os otomanos.

Key facts

  • O pacto foi secreto e não submetido às populações das províncias repartidas.
  • Rússia e Itália deram anuência, embora não fossem as duas signatárias centrais.
  • O plano combinava anexação direta, influência indireta e uma Palestina internacionalizada.
  • Os bolcheviques publicaram o texto após a Revolução Russa de 7 de novembro de 1917.
  • A configuração definitiva surgiu de guerra, conferências e mandatos, não de uma única linha no mapa.

O mecanismo da partilha, de 1916 aos mandatos

A conquista militar transformou a barganha em governo colonial. Tropas britânicas tomaram Bagdá em 11 de março de 1917 e Jerusalém em 9 de dezembro de 1917; forças árabes e britânicas entraram em Damasco em 1º de outubro de 1918. Depois do armistício otomano de 30 de outubro de 1918, vencedores renegociaram territórios.

Data Instrumento ou acontecimento Consequência
9–16 mai. 1916 Troca de notas Sykes–Picot Zonas britânicas e francesas acordadas secretamente
2 nov. 1917 Declaração Balfour Apoio britânico a um “lar nacional” judeu na Palestina
19–26 abr. 1920 Conferência de San Remo Mandatos atribuídos a Reino Unido e França
24 jul. 1922 Mandato britânico para a Palestina Aprovado pela Liga das Nações
29 set. 1923 Mandatos entram plenamente em vigor Internacionalização formal do domínio colonial

A França recebeu Síria e Líbano; o Reino Unido, Iraque e Palestina, da qual separou a administração da Transjordânia em 1921. A província de Mossul, inicialmente situada na esfera francesa de 1916, ficou sob controle britânico após a ocupação de novembro de 1918 e o acordo franco-britânico de 1º de dezembro de 1918.

Cronologia da partilha colonial, de 1916 a 19231916Sykes–Picot1917Balfour1920San Remo1923Mandatos

Veja o contexto em História colonial e os documentos quantitativos em Dados do arquivo.

Os números: população, guerra e repressão

Não existe “número de mortos de Sykes–Picot”: um tratado não oferece uma categoria causal isolável. Há, porém, mortalidade documentada nas guerras e repressões que instalaram ou defenderam a ordem mandatária.

Episódio Anos Mortes estimadas Fonte da estimativa
Revolta iraquiana 1920 6.000–10.000 iraquianos; cerca de 500 britânicos e indianos Charles Tripp; estimativas históricas reunidas pela Encyclopaedia Britannica
Grande Revolta Síria 1925–1927 cerca de 6.000 sírios Michael Provence
Revolta Árabe na Palestina 1936–1939 5.032 árabes, 262 britânicos e cerca de 300 judeus relatório oficial britânico de 1939, reproduzido por Matthew Hughes
Campanha britânica na Mesopotâmia 1914–1918 92.501 baixas britânicas e indianas, incluindo 16.712 mortos estatística oficial britânica de 1922

“Baixas” incluem mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros; portanto, não equivalem a mortes. Na revolta iraquiana de 1920, o secretário colonial Winston Churchill informou ao Parlamento, em 14 de junho de 1921, gasto extraordinário de aproximadamente £40 milhões com a Mesopotâmia no exercício de 1920–1921.

Quem lucrou: impérios, petróleo e rotas

A partilha assegurou posições militares, comunicações com a Índia, portos mediterrâneos e petróleo. A Anglo-Persian Oil Company, controlada parcialmente pelo governo britânico desde 1914, abastecia a Marinha Real. O acordo petrolífero de San Remo, assinado em 24 de abril de 1920, concedeu a interesses franceses 25% da Turkish Petroleum Company; a participação seria formalizada na reorganização de 1928.

A descoberta de Baba Gurgur, perto de Kirkuk, em 14 de outubro de 1927, confirmou o valor do Iraque. O oleoduto Kirkuk–Mediterrâneo, inaugurado em 1935, dividia-se para Trípoli, no Líbano sob mandato francês, e Haifa, na Palestina sob mandato britânico.

  1. Reino Unido: protegeu a rota imperial, bases e acesso ao petróleo mesopotâmico.
  2. França: obteve domínio na Síria e no Líbano e participação petrolífera de 25% em 1920.
  3. Companhias concessionárias: converteram autoridade mandatária em direitos de exploração de longo prazo.
  4. Elites colaboradoras: receberam cargos, terras ou monarquias dependentes, sem eliminar disputas locais.

Os mandatos eram apresentados como tutela temporária, mas funcionaram como “império por tratado”: soberania subordinada, coerção militar e concessões econômicas garantidas externamente.

Essa arquitetura integra uma história maior de extração documentada em Atrocidades e violência colonial.

Resistência, repressão e fronteiras contestadas

A resistência começou antes da formalização dos mandatos. O Congresso Nacional Sírio proclamou a independência em 8 de março de 1920 e reconheceu Faiçal como rei. A França derrotou o reino na batalha de Maysalun, em 24 de julho de 1920, e ocupou Damasco no dia seguinte.

No Iraque, levantes xiitas, sunitas e tribais em 1920 levaram Londres a substituir administração direta por uma monarquia sob Faiçal em 23 de agosto de 1921, mantendo tratados, bases e influência britânica. Na Síria, a revolta de 1925–1927 enfrentou bombardeios franceses; Damasco foi bombardeada em 18–20 de outubro de 1925. Na Palestina, a revolta de 1936–1939 foi esmagada com detenções, demolições, execuções e punições coletivas britânicas.

As fronteiras também fragmentaram redes econômicas e políticas curdas, árabes, armênias e assírias. Contudo, atribuir todos os conflitos posteriores a “linhas retas” oculta agentes locais, o colonialismo sionista na Palestina, rivalidades estatais e intervenções posteriores dos Estados Unidos, União Soviética e potências regionais.

Negação, memória e significado atual

A memória popular transforma Sykes–Picot em sinônimo de toda a ordem regional. Isso é útil como denúncia da arrogância imperial, mas impreciso como mapa: a Palestina prevista para administração internacional tornou-se mandato britânico; Mossul mudou de esfera; e a fronteira turco-síria resultou sobretudo de guerras e acordos firmados entre 1921 e 1923.

O Estado Islâmico explorou esse símbolo em 29 de junho de 2014, ao anunciar que “romperia Sykes–Picot” depois de destruir postos na fronteira Síria–Iraque. A propaganda não apagou a fronteira reconhecida internacionalmente e instrumentalizou uma memória anticolonial para legitimar seu próprio regime de terror.

Hoje, o legado mais duradouro não é a geometria do mapa, mas o precedente político: autodeterminação subordinada a interesses externos; minorias administradas como categorias coloniais; economias orientadas por concessões; e fronteiras protegidas seletivamente. Compreender isso exige separar mito, documento e consequência — e comparar fontes em Dados do arquivo.

Fontes e leituras complementares

Perguntas frequentes

O que foi o Acordo Sykes–Picot?
Foi uma troca secreta de notas concluída em 9 e 16 de maio de 1916 entre Reino Unido e França, negociada por Mark Sykes e François Georges-Picot, com anuência russa. O pacto distribuiu províncias árabes otomanas entre zonas de controle direto e influência, prevendo administração internacional para a Palestina.
Sykes–Picot criou as fronteiras atuais do Oriente Médio?
Não sozinho. O plano de 1916 foi alterado por conquistas militares, San Remo em 1920, mandatos da Liga das Nações aprovados em 1922 e acordos com a Turquia entre 1921 e 1923. Mossul passou à esfera britânica, e a Palestina não recebeu a administração internacional originalmente prevista.
Quem assinou e quem autorizou o Acordo Sykes–Picot?
O acordo foi formalizado pelo chanceler britânico Sir Edward Grey e pelo embaixador francês Paul Cambon em maio de 1916, após negociações de Mark Sykes e François Georges-Picot. A Rússia czarista consentiu em 1916; a Itália foi posteriormente contemplada nas negociações aliadas de 1917.
Qual foi o papel do petróleo na partilha?
O petróleo tornou-se central na revisão do arranjo. Mossul, ocupada pelos britânicos em novembro de 1918, integrou o Iraque sob mandato britânico. Em 24 de abril de 1920, o acordo de San Remo reservou a interesses franceses 25% da Turkish Petroleum Company; Baba Gurgur produziria uma grande descoberta em 14 de outubro de 1927.
Quantas pessoas morreram na resistência aos mandatos?
Não há total único. Historiadores estimam 6.000–10.000 iraquianos mortos na revolta de 1920; Michael Provence calcula cerca de 6.000 sírios na revolta de 1925–1927. Para a Palestina em 1936–1939, estatísticas oficiais britânicas registraram 5.032 árabes, 262 britânicos e cerca de 300 judeus mortos.

Capítulos relacionados

Temas

Todos os centros

Fontes e leituras

CC BY 4.0 ·

#sykes-picot#colonialismo#oriente-medio#mandatos-coloniais#imperialismo#petroleo#middle-east#british-empire