Sykes–Picot e a partilha colonial do Oriente Médio
Como Reino Unido e França negociaram o Sykes–Picot em 1916, dividiram províncias otomanas e construíram mandatos coloniais após a guerra.

O Acordo Sykes–Picot foi um pacto secreto concluído em 1916 por Reino Unido e França, com anuência da Rússia, para repartir províncias árabes do Império Otomano em zonas de controle direto ou influência. Mark Sykes e François Georges-Picot desenharam o esquema enquanto Londres também fazia promessas incompatíveis a lideranças árabes e negociava a Palestina com o movimento sionista.
Sykes–Picot não criou sozinho todas as fronteiras atuais. Guerra, ocupação militar, petróleo, revoltas locais, San Remo e os mandatos da Liga das Nações alteraram o plano. Mas o acordo expôs o mecanismo central: potências imperiais decidindo soberania, recursos e rotas sem consentimento das populações afetadas.
Pontos-chave
- O acordo secreto de 1916 repartiu influência britânica e francesa sobre províncias árabes otomanas sem consultar suas populações.
- San Remo, em 1920, e os mandatos vigentes em 1923 converteram a ocupação militar em domínio colonial internacionalmente autorizado.
- A ordem mandatária assegurou rotas, bases e concessões petrolíferas, incluindo a participação francesa de 25% negociada em 1920.
- Revoltas no Iraque, Síria e Palestina enfrentaram bombardeios, punições coletivas, prisões e milhares de mortes entre 1920 e 1939.
- Sykes–Picot permanece um símbolo válido da partilha imperial, mas não explica sozinho todas as fronteiras ou guerras posteriores.
O que aconteceu: diplomacia secreta e ocupação
As negociações começaram em novembro de 1915 e culminaram na troca de notas de 9 e 16 de maio de 1916. Londres e Paris previram controle francês direto no litoral sírio e na Cilícia, controle britânico direto na Mesopotâmia meridional e zonas interiores destinadas a um Estado ou confederação árabe sob predominância econômica francesa ou britânica. A Palestina teria administração internacional, cuja forma não foi definida.
“That France and Great Britain are prepared to recognize and protect an independent Arab State or a Confederation of Arab States.” — Sir Edward Grey, nota diplomática britânica que incorporou o Acordo Sykes–Picot, 16 de maio de 1916.
A fórmula prometia reconhecer uma entidade árabe, mas reservava às potências direitos prioritários sobre empréstimos, ferrovias, portos, assessores e administração. A correspondência Hussein–McMahon, composta por 10 cartas entre 14 de julho de 1915 e 10 de março de 1916, já alimentava expectativas de independência árabe em troca da revolta contra os otomanos.
Key facts
- O pacto foi secreto e não submetido às populações das províncias repartidas.
- Rússia e Itália deram anuência, embora não fossem as duas signatárias centrais.
- O plano combinava anexação direta, influência indireta e uma Palestina internacionalizada.
- Os bolcheviques publicaram o texto após a Revolução Russa de 7 de novembro de 1917.
- A configuração definitiva surgiu de guerra, conferências e mandatos, não de uma única linha no mapa.
O mecanismo da partilha, de 1916 aos mandatos
A conquista militar transformou a barganha em governo colonial. Tropas britânicas tomaram Bagdá em 11 de março de 1917 e Jerusalém em 9 de dezembro de 1917; forças árabes e britânicas entraram em Damasco em 1º de outubro de 1918. Depois do armistício otomano de 30 de outubro de 1918, vencedores renegociaram territórios.
| Data | Instrumento ou acontecimento | Consequência |
|---|---|---|
| 9–16 mai. 1916 | Troca de notas Sykes–Picot | Zonas britânicas e francesas acordadas secretamente |
| 2 nov. 1917 | Declaração Balfour | Apoio britânico a um “lar nacional” judeu na Palestina |
| 19–26 abr. 1920 | Conferência de San Remo | Mandatos atribuídos a Reino Unido e França |
| 24 jul. 1922 | Mandato britânico para a Palestina | Aprovado pela Liga das Nações |
| 29 set. 1923 | Mandatos entram plenamente em vigor | Internacionalização formal do domínio colonial |
A França recebeu Síria e Líbano; o Reino Unido, Iraque e Palestina, da qual separou a administração da Transjordânia em 1921. A província de Mossul, inicialmente situada na esfera francesa de 1916, ficou sob controle britânico após a ocupação de novembro de 1918 e o acordo franco-britânico de 1º de dezembro de 1918.
Veja o contexto em História colonial e os documentos quantitativos em Dados do arquivo.
Os números: população, guerra e repressão
Não existe “número de mortos de Sykes–Picot”: um tratado não oferece uma categoria causal isolável. Há, porém, mortalidade documentada nas guerras e repressões que instalaram ou defenderam a ordem mandatária.
| Episódio | Anos | Mortes estimadas | Fonte da estimativa |
|---|---|---|---|
| Revolta iraquiana | 1920 | 6.000–10.000 iraquianos; cerca de 500 britânicos e indianos | Charles Tripp; estimativas históricas reunidas pela Encyclopaedia Britannica |
| Grande Revolta Síria | 1925–1927 | cerca de 6.000 sírios | Michael Provence |
| Revolta Árabe na Palestina | 1936–1939 | 5.032 árabes, 262 britânicos e cerca de 300 judeus | relatório oficial britânico de 1939, reproduzido por Matthew Hughes |
| Campanha britânica na Mesopotâmia | 1914–1918 | 92.501 baixas britânicas e indianas, incluindo 16.712 mortos | estatística oficial britânica de 1922 |
“Baixas” incluem mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros; portanto, não equivalem a mortes. Na revolta iraquiana de 1920, o secretário colonial Winston Churchill informou ao Parlamento, em 14 de junho de 1921, gasto extraordinário de aproximadamente £40 milhões com a Mesopotâmia no exercício de 1920–1921.
Quem lucrou: impérios, petróleo e rotas
A partilha assegurou posições militares, comunicações com a Índia, portos mediterrâneos e petróleo. A Anglo-Persian Oil Company, controlada parcialmente pelo governo britânico desde 1914, abastecia a Marinha Real. O acordo petrolífero de San Remo, assinado em 24 de abril de 1920, concedeu a interesses franceses 25% da Turkish Petroleum Company; a participação seria formalizada na reorganização de 1928.
A descoberta de Baba Gurgur, perto de Kirkuk, em 14 de outubro de 1927, confirmou o valor do Iraque. O oleoduto Kirkuk–Mediterrâneo, inaugurado em 1935, dividia-se para Trípoli, no Líbano sob mandato francês, e Haifa, na Palestina sob mandato britânico.
- Reino Unido: protegeu a rota imperial, bases e acesso ao petróleo mesopotâmico.
- França: obteve domínio na Síria e no Líbano e participação petrolífera de 25% em 1920.
- Companhias concessionárias: converteram autoridade mandatária em direitos de exploração de longo prazo.
- Elites colaboradoras: receberam cargos, terras ou monarquias dependentes, sem eliminar disputas locais.
Os mandatos eram apresentados como tutela temporária, mas funcionaram como “império por tratado”: soberania subordinada, coerção militar e concessões econômicas garantidas externamente.
Essa arquitetura integra uma história maior de extração documentada em Atrocidades e violência colonial.
Resistência, repressão e fronteiras contestadas
A resistência começou antes da formalização dos mandatos. O Congresso Nacional Sírio proclamou a independência em 8 de março de 1920 e reconheceu Faiçal como rei. A França derrotou o reino na batalha de Maysalun, em 24 de julho de 1920, e ocupou Damasco no dia seguinte.
No Iraque, levantes xiitas, sunitas e tribais em 1920 levaram Londres a substituir administração direta por uma monarquia sob Faiçal em 23 de agosto de 1921, mantendo tratados, bases e influência britânica. Na Síria, a revolta de 1925–1927 enfrentou bombardeios franceses; Damasco foi bombardeada em 18–20 de outubro de 1925. Na Palestina, a revolta de 1936–1939 foi esmagada com detenções, demolições, execuções e punições coletivas britânicas.
As fronteiras também fragmentaram redes econômicas e políticas curdas, árabes, armênias e assírias. Contudo, atribuir todos os conflitos posteriores a “linhas retas” oculta agentes locais, o colonialismo sionista na Palestina, rivalidades estatais e intervenções posteriores dos Estados Unidos, União Soviética e potências regionais.
Negação, memória e significado atual
A memória popular transforma Sykes–Picot em sinônimo de toda a ordem regional. Isso é útil como denúncia da arrogância imperial, mas impreciso como mapa: a Palestina prevista para administração internacional tornou-se mandato britânico; Mossul mudou de esfera; e a fronteira turco-síria resultou sobretudo de guerras e acordos firmados entre 1921 e 1923.
O Estado Islâmico explorou esse símbolo em 29 de junho de 2014, ao anunciar que “romperia Sykes–Picot” depois de destruir postos na fronteira Síria–Iraque. A propaganda não apagou a fronteira reconhecida internacionalmente e instrumentalizou uma memória anticolonial para legitimar seu próprio regime de terror.
Hoje, o legado mais duradouro não é a geometria do mapa, mas o precedente político: autodeterminação subordinada a interesses externos; minorias administradas como categorias coloniais; economias orientadas por concessões; e fronteiras protegidas seletivamente. Compreender isso exige separar mito, documento e consequência — e comparar fontes em Dados do arquivo.
Fontes e leituras complementares
- Texto do Acordo Sykes–Picot — Avalon Project, Yale Law School
- The Creation of Iraq, 1914–1921 — Reeva Spector Simon e Eleanor H. Tejirian, Columbia University Press
- The Great Syrian Revolt and the Rise of Arab Nationalism — Michael Provence, University of Texas Press
- Britain’s Pacification of Palestine — Matthew Hughes, Cambridge University Press
- Sykes–Picot Agreement — Encyclopaedia Britannica
Perguntas frequentes
- O que foi o Acordo Sykes–Picot?
- Foi uma troca secreta de notas concluída em 9 e 16 de maio de 1916 entre Reino Unido e França, negociada por Mark Sykes e François Georges-Picot, com anuência russa. O pacto distribuiu províncias árabes otomanas entre zonas de controle direto e influência, prevendo administração internacional para a Palestina.
- Sykes–Picot criou as fronteiras atuais do Oriente Médio?
- Não sozinho. O plano de 1916 foi alterado por conquistas militares, San Remo em 1920, mandatos da Liga das Nações aprovados em 1922 e acordos com a Turquia entre 1921 e 1923. Mossul passou à esfera britânica, e a Palestina não recebeu a administração internacional originalmente prevista.
- Quem assinou e quem autorizou o Acordo Sykes–Picot?
- O acordo foi formalizado pelo chanceler britânico Sir Edward Grey e pelo embaixador francês Paul Cambon em maio de 1916, após negociações de Mark Sykes e François Georges-Picot. A Rússia czarista consentiu em 1916; a Itália foi posteriormente contemplada nas negociações aliadas de 1917.
- Qual foi o papel do petróleo na partilha?
- O petróleo tornou-se central na revisão do arranjo. Mossul, ocupada pelos britânicos em novembro de 1918, integrou o Iraque sob mandato britânico. Em 24 de abril de 1920, o acordo de San Remo reservou a interesses franceses 25% da Turkish Petroleum Company; Baba Gurgur produziria uma grande descoberta em 14 de outubro de 1927.
- Quantas pessoas morreram na resistência aos mandatos?
- Não há total único. Historiadores estimam 6.000–10.000 iraquianos mortos na revolta de 1920; Michael Provence calcula cerca de 6.000 sírios na revolta de 1925–1927. Para a Palestina em 1936–1939, estatísticas oficiais britânicas registraram 5.032 árabes, 262 britânicos e cerca de 300 judeus mortos.
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Fontes e leituras
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