Massacre de Wounded Knee: mortos, responsáveis e memória
Guia factual do massacre de Wounded Knee em 1890: vítimas Lakota, ação do 7º Regimento de Cavalaria, causas, responsáveis, resistência e memória.

Em 29 de dezembro de 1890, soldados do 7º Regimento de Cavalaria dos Estados Unidos mataram entre 250 e 300 Lakota — muitos deles mulheres e crianças — perto do riacho Wounded Knee, na Reserva de Pine Ridge, Dakota do Sul. O episódio encerrou militarmente a campanha federal contra a Dança dos Espíritos e consolidou a expropriação das terras Lakota.
O Exército chamou o massacre de “batalha” e concedeu 19 Medalhas de Honra por Wounded Knee em 1891; a campanha de Pine Ridge recebeu 31. Essa linguagem oficial ocultou uma operação cercada por tropas, apoiada por canhões Hotchkiss e dirigida contra uma comunidade já desarmada e submetida à fome. Este hub conecta o caso à história colonial, ao catálogo de atrocidades e aos dados históricos.
Pontos-chave
- Em 29 de dezembro de 1890, o 7º Regimento de Cavalaria matou entre 250 e 300 Lakota em Wounded Knee.
- Cerca de 470 soldados, apoiados por 4 canhões Hotchkiss, cercaram aproximadamente 350 Lakota antes de iniciar o desarmamento.
- A tomada das Black Hills e a divisão territorial de 1889 criaram o contexto colonial que tornou possível o massacre.
- Em 1891, o governo concedeu 19 Medalhas de Honra por Wounded Knee, e elas permaneciam vigentes em agosto de 2026.
- A reivindicação Lakota das Black Hills persiste apesar da indenização de US$ 105 milhões confirmada pela Suprema Corte em 1980.
O que aconteceu em Wounded Knee
A crise começou quando autoridades federais classificaram a Dança dos Espíritos, religião intertribal associada ao profeta paiute Wovoka, como ameaça militar. Em 15 de dezembro de 1890, policiais indígenas enviados para prender Tȟatȟáŋka Íyotake (Sitting Bull) o mataram na Reserva de Standing Rock; no tiroteio, morreram Sitting Bull, 7 seguidores e 6 policiais, conforme os registros contemporâneos reunidos pelo National Park Service.
O chefe Spotted Elk, também chamado Big Foot, conduziu seu grupo Miniconjou rumo a Pine Ridge. Em 28 de dezembro de 1890, o major Samuel Whitside interceptou cerca de 350 Lakota — estimativa tradicional de aproximadamente 120 homens e 230 mulheres e crianças — e os escoltou até Wounded Knee. Cerca de 470 soldados do 7º Regimento cercaram o acampamento, com 4 canhões Hotchkiss de disparo rápido posicionados numa elevação.
Na manhã de 29 de dezembro de 1890, o coronel James W. Forsyth ordenou o desarmamento. Uma disputa envolvendo o rifle de Black Coyote precedeu um tiro; não existe consenso documental sobre quem disparou primeiro. Os soldados abriram fogo com carabinas e canhões sobre o acampamento e contra pessoas que fugiam. Corpos foram encontrados a quilômetros do ponto inicial.
“Big Foot jazia ali, no frio, e seu povo estava espalhado ao redor; os corpos de mulheres e crianças estavam dispersos ao longo da ravina tortuosa.” — Black Elk, relato a John G. Neihardt, Black Elk Speaks (1932).
O mecanismo colonial: terra, fome e força militar
Wounded Knee não foi um choque isolado. Foi o resultado de tratados violados, destruição econômica e confinamento. O Tratado de Fort Laramie de 1868 reconheceu a Grande Reserva Sioux, incluindo as Black Hills. Após a descoberta de ouro nas Black Hills em 1874, uma expedição comandada por George A. Custer acelerou a invasão de mineradores. Em 1877, o Congresso confiscou as Black Hills sem o consentimento exigido de 75% dos homens Lakota adultos.
A Lei Dawes de 1887 fragmentou territórios comunais em lotes individuais e abriu “excedentes” à ocupação branca. Pela lei de 2 de março de 1889, o governo dividiu a Grande Reserva Sioux em 5 reservas e obteve aproximadamente 9 milhões de acres para colonização, segundo registros legislativos federais. Agentes reduziram rações durante secas e quebras de safra em 1889–1890, aumentando fome e dependência.
- O governo rompeu garantias territoriais firmadas em 1868.
- Colonos e mineradores ocuparam terras após 1874.
- Leis federais impuseram parcelamento em 1887 e divisão territorial em 1889.
- Agentes controlaram alimentos, circulação e práticas religiosas em 1890.
- O Exército mobilizou milhares de soldados na campanha de Pine Ridge de 1890–1891.
Os números: mortos, feridos e forças mobilizadas
Os registros são incompletos porque uma nevasca interrompeu a retirada dos corpos, famílias recuperaram alguns mortos e o Exército enterrou 146 Lakota numa vala comum em 3 de janeiro de 1891. O coronel Forsyth registrou inicialmente 84 homens, 44 mulheres e 18 crianças mortos — 146 corpos —, mas testemunhas e historiadores situam o total entre 250 e 300 Lakota em 1890.
| Grupo | Mortos em 1890 | Feridos em 1890 | Fonte ou base da estimativa |
|---|---|---|---|
| Lakota | 146 recuperados; 250–300 estimados | 51 registrados | Relatório de Forsyth; estimativa histórica citada pelo National Park Service |
| Exército dos EUA | 25 | 39 | Relatórios oficiais do Exército, 1890–1891 |
| Total | 275–325 estimados | 90 registrados | Soma dos intervalos e registros acima |
Muitos dos 25 soldados mortos e 39 feridos em 1890 provavelmente foram atingidos por fogo amigo, dado o cerco e as linhas cruzadas de tiro; os relatórios não permitem quantificar com segurança quantos. Entre os Lakota, listas nominais permanecem incompletas.
| Data | Dado concreto | Significado |
|---|---|---|
| 28 dez. 1890 | cerca de 350 Lakota detidos | Comunidade de Spotted Elk escoltada ao acampamento |
| 29 dez. 1890 | cerca de 470 soldados | Força do 7º Regimento presente |
| 29 dez. 1890 | 4 canhões Hotchkiss | Armas posicionadas sobre o acampamento |
| 3 jan. 1891 | 146 corpos enterrados | Vala comum aberta após a nevasca |
| 1891 | 19 Medalhas de Honra | Concessões específicas por Wounded Knee |
Fatos-chave
- O massacre ocorreu em 29 de dezembro de 1890, na Reserva de Pine Ridge.
- Entre 250 e 300 Lakota morreram, segundo a faixa histórica adotada pelo National Park Service.
- O Exército registrou 25 soldados mortos e 39 feridos em 1890.
- A campanha federal distribuiu 31 Medalhas de Honra em 1891, 19 delas ligadas diretamente a Wounded Knee.
Quem se beneficiou da expropriação
O massacre não produziu um espólio comercial único; protegeu uma ordem econômica baseada na transferência de terra indígena. Colonos, companhias ferroviárias, comerciantes, pecuaristas e mineradores se beneficiaram da abertura das terras Sioux. O Homestead Act de 1862 oferecia lotes de 160 acres; ferrovias receberam concessões federais que somaram cerca de 131 milhões de acres entre 1850 e 1871, segundo o Congressional Research Service, embora esse total nacional não corresponda apenas a território Lakota.
Nas Black Hills, o ouro extraído desde 1875 sustentou cidades e empresas de mineração. A mina Homestake, fundada em 1877, tornou-se o principal empreendimento aurífero regional e operou até 2002. Não existe contabilidade confiável que permita atribuir uma receita específica ao massacre de 1890; inventar tal cifra confundiria o benefício estrutural da conquista com lucro diretamente documentado.
Em United States v. Sioux Nation of Indians (1980), a Suprema Corte confirmou que a tomada das Black Hills violara a Quinta Emenda e manteve indenização de US$ 105 milhões em valores de 1980: US$ 17,1 milhões pelo valor de 1877 e aproximadamente US$ 88 milhões em juros. A Nação Sioux recusou o dinheiro, insistindo na devolução da terra.
A decisão de 1980 não “vendeu” as Black Hills: reconheceu uma apropriação ilegal. A recusa Lakota transforma a disputa numa reivindicação territorial ainda aberta.
Resistência Lakota, sobrevivência e memória
A Dança dos Espíritos foi uma resposta religiosa e política ao confinamento, à fome e ao colapso provocado pelo extermínio dos bisões. Autoridades a apresentaram como insurreição para justificar a campanha de 1890. Depois do massacre, sobreviventes preservaram relatos, nomes e cerimônias apesar da repressão federal às religiões indígenas, parcialmente revertida pela American Indian Religious Freedom Act de 1978.
Em 27 de fevereiro de 1973, ativistas do American Indian Movement e residentes Oglala ocuparam Wounded Knee. O cerco federal durou 71 dias, até 8 de maio de 1973. Dois indígenas, Frank Clearwater e Lawrence Lamont, morreram; o marechal federal Lloyd Grimm ficou paralisado após ser baleado. A ocupação recolocou soberania, violência policial e tratados no debate internacional.
Em 1990, no centenário, o Congresso aprovou uma resolução expressando “profundo pesar”, mas não revogou as medalhas. Em 20 de dezembro de 2021, o Senado Oglala Sioux pediu formalmente sua retirada. Até agosto de 2026, as 19 Medalhas de Honra concedidas especificamente por Wounded Knee em 1891 permanecem vigentes.
A memória pública também enfrenta nomenclatura e propriedade. O local foi designado Marco Histórico Nacional em 1965. Em 2022, as tribos Oglala Sioux e Cheyenne River Sioux compraram aproximadamente 40 acres do sítio por US$ 500 mil, segundo a Associated Press, colocando parte central da área sob controle indígena.
O que Wounded Knee significa hoje
Wounded Knee evidencia como um Estado pode converter expropriação em segurança pública: primeiro viola tratados, depois produz dependência material e finalmente trata uma religião subjugada como ameaça. A violência de 1890 pertence à história mais ampla do colonialismo de povoamento registrada em História e deve ser comparada, sem apagar suas especificidades, a outros casos em Atrocidades.
O caso continua materialmente presente em 3 frentes: a reivindicação das Black Hills, reconhecida judicialmente em 1980; a campanha pela revogação das 19 medalhas de 1891; e o controle Lakota sobre memória, arquivos e território. Os números disponíveis em Dados devem ser lidos com seus limites: a cifra mínima de 146 corpos recuperados em 1891 não substitui a estimativa de 250–300 mortos em 1890.
Chamar Wounded Knee de massacre não é retórica retrospectiva. É uma conclusão baseada na assimetria militar, no perfil das vítimas, na perseguição de fugitivos e no contexto documentado de remoção territorial. A precisão histórica exige nomear simultaneamente a ação do 7º Regimento, a responsabilidade federal e a continuidade da soberania Lakota.
Fontes e leituras adicionais
- National Park Service — Wounded Knee Massacre
- Encyclopaedia Britannica — Wounded Knee Massacre
- Suprema Corte dos EUA — United States v. Sioux Nation of Indians, 1980
- Smithsonian Magazine — How the Battle of Wounded Knee Became a Massacre
- Associated Press — Tribes purchase Wounded Knee site, 2022
- Library of Congress — Treaty of Fort Laramie, 1868
Perguntas frequentes
- Quantos Lakota morreram no massacre de Wounded Knee?
- Entre 250 e 300 Lakota foram mortos em 29 de dezembro de 1890, faixa histórica adotada pelo National Park Service. O coronel James W. Forsyth contabilizou 146 corpos recuperados — 84 homens, 44 mulheres e 18 crianças —, enterrados numa vala comum em 3 de janeiro de 1891. A diferença decorre de corpos removidos por famílias, desaparecidos e vítimas encontradas longe do acampamento.
- Quem ordenou e executou o massacre de Wounded Knee?
- O 7º Regimento de Cavalaria dos Estados Unidos executou a operação em 29 de dezembro de 1890. O coronel James W. Forsyth comandava no local, enquanto o major Samuel Whitside havia interceptado o grupo de Spotted Elk em 28 de dezembro. A campanha federal de Pine Ridge estava sob o general Nelson A. Miles, que posteriormente criticou a disposição das tropas e buscou responsabilizar Forsyth.
- Por que o massacre de Wounded Knee aconteceu?
- O massacre resultou da expropriação colonial das terras Lakota, da fome nas reservas e da repressão à Dança dos Espíritos. O governo violou o Tratado de Fort Laramie de 1868, tomou as Black Hills em 1877 e dividiu a Grande Reserva Sioux em 5 reservas pela lei de 1889. Em 1890, autoridades federais trataram uma religião indígena como ameaça militar.
- Quantos soldados receberam a Medalha de Honra por Wounded Knee?
- Dezenove soldados receberam em 1891 a Medalha de Honra por ações diretamente relacionadas a Wounded Knee; ao todo, 31 medalhas foram concedidas pela campanha de Pine Ridge de 1890–1891. Lideranças Lakota e parlamentares apresentaram propostas de revogação. Até agosto de 2026, as 19 condecorações específicas de Wounded Knee não haviam sido retiradas.
- Wounded Knee foi uma batalha ou um massacre?
- Embora o Exército tenha registrado o episódio de 29 de dezembro de 1890 como “Battle of Wounded Knee”, a historiografia o classifica como massacre. Cerca de 470 soldados e 4 canhões Hotchkiss cercavam aproximadamente 350 Lakota; entre 250 e 300 indígenas morreram, incluindo muitas mulheres e crianças. Houve resistência armada, mas ela não elimina a extrema assimetria nem a perseguição de fugitivos.
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Fontes e leituras
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