1948: Nakba e fundação do apartheid sul-africano
Como 1948 institucionalizou a expulsão palestina e o apartheid sul-africano: cronologia, vítimas, leis, responsáveis e legados duradouros.

Em 1948, dois projetos de poder racial foram convertidos em ordem estatal. Na Palestina, forças sionistas expulsaram a maior parte da população árabe das áreas que formaram Israel, destruíram centenas de localidades e impediram o retorno dos refugiados — processo conhecido como Nakba. Na África do Sul, a vitória eleitoral do Partido Nacional transformou décadas de supremacia branca em apartheid oficialmente sistematizado.
As histórias não são idênticas, mas pertencem à mesma conjuntura de descolonização seletiva: enquanto a ONU proclamava direitos universais, Estados consolidavam cidadanias, territórios e mobilidade segundo hierarquias étnico-raciais. Este hub situa 1948 na cronologia do arquivo e no panorama de atrocidades documentadas.
Pontos-chave
- Em 1948, cerca de 700 mil–750 mil palestinos foram expulsos ou fugiram, e Israel impediu seu retorno coletivo.
- Israel terminou a guerra controlando aproximadamente 78% da Palestina mandatária, contra cerca de 56% previsto pela partilha da ONU.
- A vitória de Daniel François Malan em 26 de maio de 1948 converteu a segregação sul-africana em apartheid sistematicamente legislado.
- A minoria branca, aproximadamente 21% da população sul-africana em 1946, monopolizava o poder parlamentar nacional em 1948.
- A Nakba e o apartheid não foram eventos idênticos, mas institucionalizaram desapropriação, segregação territorial e direitos distribuídos por identidade.
O mundo antes de 1948
A Palestina estava sob Mandato Britânico desde 1922. Entre 1922 e 1947, imigração judaica — impulsionada pelo sionismo europeu, pelo antissemitismo e, decisivamente, pelo Holocausto — elevou a população judaica de cerca de 84 mil para aproximadamente 630 mil, segundo estatísticas mandatárias e estimativas da ONU. Em 1947, cerca de 1,2 milhão de árabes palestinos continuavam sendo aproximadamente dois terços da população.
Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral aprovou a Resolução 181: propôs atribuir cerca de 56% da Palestina mandatária ao Estado judeu, embora judeus fossem aproximadamente 33% da população em 1947 e possuíssem cerca de 7% das terras. A liderança sionista aceitou a partilha como base estatal; a liderança árabe rejeitou uma divisão imposta sem consentimento da maioria nativa.
Na África do Sul, a segregação precedia o apartheid. O Natives Land Act de 1913 reservou inicialmente cerca de 7% das terras aos africanos negros; legislação posterior ampliou as reservas para aproximadamente 13% em 1936, embora negros fossem cerca de 70% da população. Leis já controlavam residência, trabalho, voto e circulação. Em 1948, o Partido Nacional de Daniel François Malan ofereceu ao eleitorado branco a doutrina do apartheid, isto é, separação racial organizada pelo Estado.
“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.” — Assembleia Geral das Nações Unidas, 1948, Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo 1º.
A declaração foi adotada em 10 de dezembro de 1948, no mesmo ano em que expulsão e classificação racial redesenhavam vidas. Consulte também a linha do tempo histórica.
O que aconteceu em 1948
A guerra na Palestina começou após a votação da partilha, em 30 de novembro de 1947. Em abril de 1948, a Haganah iniciou operações ofensivas associadas ao Plano Dalet; Irgun e Lehi participaram de ataques e expulsões. Em Deir Yassin, em 9 de abril, combatentes do Irgun e do Lehi mataram aproximadamente 100 moradores; estudos citados por Benny Morris e pela pesquisa memorial local convergem em cerca de 100–110, abaixo das alegações iniciais de 254. Em 14 de maio, David Ben-Gurion declarou Israel; em 15 de maio, exércitos árabes intervieram.
Na África do Sul, a eleição de 26 de maio de 1948 foi decidida apenas pelo eleitorado habilitado sob uma ordem dominada por brancos. A coalizão do Partido Nacional venceu 79 das 153 cadeiras parlamentares, contra 71 do Partido Unido e aliados, apesar de receber menos votos no total. Malan assumiu em 4 de junho. A engenharia legal acelerou em 1949–1953: proibição de casamentos inter-raciais, classificação racial, segregação residencial, passes e educação bantu.
| Data | Evento | Consequência |
|---|---|---|
| 29 nov. 1947 | ONU aprova a Resolução 181 | A partilha desencadeia guerra civil na Palestina mandatária. |
| 30 nov. 1947 | Começam confrontos generalizados | Estradas, cidades e aldeias tornam-se frentes de guerra. |
| 10 mar. 1948 | Haganah finaliza o Plano Dalet | Operações passam a assegurar território e despovoar localidades consideradas hostis. |
| 9 abr. 1948 | Massacre de Deir Yassin | Cerca de 100–110 palestinos são mortos; o pânico amplia deslocamentos. |
| 21–22 abr. 1948 | Forças da Haganah tomam Haifa | Dezenas de milhares de palestinos deixam a cidade. |
| 14 maio 1948 | Ben-Gurion proclama Israel | Termina o Mandato Britânico e nasce o novo Estado. |
| 15 maio 1948 | Exércitos árabes entram na guerra | O conflito torna-se guerra interestatal. |
| 26 maio 1948 | Partido Nacional vence na África do Sul | O apartheid torna-se programa do governo central. |
| 4 jun. 1948 | Malan assume como primeiro-ministro | Começa a codificação sistemática da supremacia branca. |
| 11 dez. 1948 | ONU aprova a Resolução 194 | O artigo 11 afirma retorno e compensação para refugiados palestinos. |
Os números da expulsão, da guerra e do domínio racial
A estimativa mais citada para a Nakba é de aproximadamente 750 mil palestinos deslocados em 1947–1949. A ONU estimou 726 mil refugiados em 1949; historiadores e instituições palestinas usam geralmente 750 mil, dentro de uma faixa aproximada de 700 mil–750 mil. Benny Morris documentou 369 localidades árabes esvaziadas; Walid Khalidi catalogou 418 aldeias destruídas ou despovoadas, diferença produzida por critérios territoriais e documentais.
Quanto às mortes palestinas na guerra de 1947–1949, não existe contagem definitiva: estimativas acadêmicas situam-nas geralmente entre 10 mil e 15 mil. Israel registrou 6.373 mortos entre novembro de 1947 e julho de 1949, incluindo aproximadamente 4 mil combatentes e 2.400 civis. Ao final dos armistícios de 1949, Israel controlava cerca de 78% da Palestina mandatária, não os cerca de 56% propostos em 1947 pela Resolução 181.
Na África do Sul, o censo de 1946 registrou aproximadamente 11,4 milhões de habitantes: cerca de 7,8 milhões classificados como africanos, 2,4 milhões como brancos, 928 mil como “coloured” e 285 mil como indianos. Assim, uma minoria branca de aproximadamente 21% controlava Parlamento, terras e coerção estatal em 1948.
O que 1948 colocou em movimento
Israel adotou mecanismos para converter deslocamento em expropriação permanente. Os Regulamentos de Emergência sobre Propriedade de Ausentes, de 1948, e a Absentees’ Property Law, de 1950, transferiram imóveis palestinos ao Custodiante de Propriedades de Ausentes. A ONU criou a UNRWA em 8 de dezembro de 1949; em 2023, a agência registrava aproximadamente 5,9 milhões de refugiados palestinos elegíveis, descendentes incluídos. A Resolução 194, de 1948, afirmou que refugiados dispostos a viver em paz deveriam poder retornar “na data mais próxima possível” e que os demais deveriam ser compensados, mas Israel não implementou esse princípio.
“Os refugiados que desejarem regressar aos seus lares e viver em paz com os seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais próxima possível.” — Assembleia Geral da ONU, 1948, Resolução 194 (III), parágrafo 11, tradução.
Na África do Sul, o Population Registration Act e o Group Areas Act, ambos de 1950, fizeram da classificação racial a infraestrutura do cotidiano. O Bantu Authorities Act de 1951 sustentou administrações territoriais; o Natives (Abolition of Passes and Co-ordination of Documents) Act de 1952 expandiu documentos de referência; o Bantu Education Act de 1953 subordinou a escola negra às necessidades do trabalho branco. Entre 1960 e 1983, o Estado executou aproximadamente 3,5 milhões de remoções forçadas, segundo Surplus People Project e pesquisas consolidadas por acadêmicos sul-africanos.
A Nakba e o apartheid sul-africano integraram histórias distintas, sem equivalência mecânica. O vínculo analítico está na produção estatal de maioria e minoria, na segregação territorial, na desapropriação e na negação desigual de direitos. Para comparações documentadas, veja atrocidades e sistemas de violência.
Memória, negação e disputa pública
Palestinos lembram a Nakba em 15 de maio, data observada publicamente desde 1949 e consolidada internacionalmente nas décadas seguintes. Chaves de casas perdidas, títulos de propriedade, histórias orais e mapas de aldeias preservam reivindicações concretas, não apenas símbolos. Em Israel, arquivos militares e trabalhos de historiadores como Benny Morris, Ilan Pappé e Avi Shlaim romperam versões que atribuíam o êxodo exclusivamente a ordens árabes; divergem, porém, sobre intenção centralizada, terminologia e interpretação moral.
Na África do Sul, o apartheid terminou juridicamente com as eleições multirraciais de 27 de abril de 1994, mas a concentração fundiária, espacial e patrimonial permaneceu. A Comissão da Verdade e Reconciliação, criada em 1995, documentou graves violações entre 1960 e 1994, sem reverter a arquitetura econômica formada por conquista colonial, segregação e apartheid.
A memória de 1948 é disputada porque determina quem pode narrar fundação como libertação e quem a vive como catástrofe. Um arquivo rigoroso registra simultaneamente a segurança conquistada por sobreviventes judeus do antissemitismo europeu e o fato incontornável de que essa soberania foi consolidada mediante a expulsão palestina; também registra que o governo Malan nomeou e ampliou um regime de supremacia branca já existente.
Fontes e leituras complementares
- United Nations — The Question of Palestine: Resolution 194
- UNRWA — Palestine refugees
- Encyclopaedia Britannica — Palestine: The Arab-Israeli War of 1948
- South African History Online — National Party and apartheid
- United States Holocaust Memorial Museum — The Holocaust and the founding of Israel
- Institute for Palestine Studies — The Nakba
Perguntas frequentes
- O que foi a Nakba de 1948?
- A Nakba foi a expulsão, fuga forçada, desapropriação e fragmentação da sociedade árabe palestina durante a guerra de 1947–1949 e depois dela. A ONU estimou 726 mil refugiados em 1949; a cifra histórica mais usada é cerca de 750 mil. Forças sionistas e, após 14 de maio de 1948, forças israelenses despovoaram centenas de localidades, enquanto Israel bloqueou o retorno.
- Quantas aldeias palestinas foram destruídas ou despovoadas?
- Os totais variam conforme a definição. Benny Morris documentou 369 localidades árabes esvaziadas durante 1947–1949; Walid Khalidi catalogou 418 aldeias palestinas destruídas ou despovoadas. A diferença decorre da inclusão de pequenas comunidades, localidades beduínas e áreas incorporadas, não de dúvida sobre a escala do despovoamento.
- Por que 1948 marca o início do apartheid na África do Sul?
- A segregação era anterior, mas em 26 de maio de 1948 o Partido Nacional de Daniel François Malan venceu 79 das 153 cadeiras e fez do apartheid seu programa estatal. A partir de 1949, leis sobre casamento, classificação racial, residência, passes e educação transformaram supremacia branca existente em um sistema nacional mais rígido e integrado.
- A ONU reconheceu o direito de retorno dos refugiados palestinos?
- A Resolução 194 da Assembleia Geral, aprovada em 11 de dezembro de 1948, declarou no parágrafo 11 que refugiados desejosos de viver em paz deveriam retornar na data mais próxima possível e que compensações deveriam ser pagas. Israel não implementou o retorno coletivo. Em 2023, a UNRWA registrava aproximadamente 5,9 milhões de refugiados palestinos elegíveis.
- Nakba e apartheid sul-africano são a mesma coisa?
- Não. A Nakba designa a expulsão e desapropriação palestina iniciada centralmente em 1947–1949; o apartheid foi um regime sul-africano de classificação, segregação e supremacia branca formalizado após 1948. A comparação é útil quando especifica mecanismos comuns — território, mobilidade, propriedade e cidadania racializada — sem apagar contextos, cronologias ou agentes distintos.
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Fontes e leituras
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