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1960: o Ano da África e os termos da independência

Em 1960, 17 países africanos conquistaram independência formal, mas herdaram fronteiras coloniais, economias dependentes e soberania limitada.

1960: o Ano da África e os termos da independência
Wikimedia Commons / Wikipedia — Year of Africa

Em 1960, 17 países africanos tornaram-se formalmente independentes: 14 antigas colônias francesas, 2 britânicas e o Congo Belga. O chamado Ano da África alterou a composição da ONU e transformou a descolonização em questão incontornável, mas não eliminou o poder europeu sobre moedas, bases militares, empresas, matérias-primas ou decisões de Estado.

A independência chegou sob termos desiguais. Enquanto lideranças africanas conquistavam soberania jurídica, antigas metrópoles preservavam redes econômicas e estratégicas; no Congo, a retirada belga abriu imediatamente uma luta internacional pelo controle político e mineral. Este hub situa 1960 na cronologia da descolonização e na formação das neocolônias.

Pontos-chave

  • Em 1960, 17 países africanos conquistaram independência formal, incluindo 14 antigas colônias francesas, 2 britânicas e o Congo Belga.
  • A Resolução 1514 da ONU foi aprovada em 1960 por 89 votos a favor, nenhum contra e 9 abstenções.
  • A independência preservou frequentemente moedas, bases militares, contratos e redes empresariais que limitavam a soberania econômica dos novos Estados.
  • A crise congolesa demonstrou como interesses belgas, minerais e da Guerra Fria podiam destruir uma transferência formal de poder.
  • O Ano da África iniciou uma nova etapa da descolonização, mas não libertou territórios portugueses nem encerrou o apartheid sul-africano.

Antes de 1960: impérios pressionados, soberanias em disputa

Em 1945, apenas 4 Estados africanos — Egito, Etiópia, Libéria e União Sul-Africana — integravam o grupo original de 51 membros das Nações Unidas. A Segunda Guerra Mundial enfraquecera França, Reino Unido e Bélgica; veteranos africanos, sindicatos, partidos nacionalistas e congressos pan-africanos passaram a exigir autogoverno, não reformas decorativas.

A independência da Índia, em 1947, e a Conferência Afro-Asiática de Bandung, com 29 governos participantes em 1955, ampliaram a pressão. Gana, independente em 1957 sob Kwame Nkrumah, tornou-se base política do pan-africanismo. A guerra da Argélia, iniciada em 1954, expôs a violência necessária para conservar o império francês: estimativas demográficas acadêmicas situam as mortes argelinas em aproximadamente 300 mil a 400 mil entre 1954 e 1962, enquanto a cifra oficial argelina posterior fixou 1,5 milhão.

A França criou a Comunidade Francesa pela Constituição de 1958. Naquele ano, somente a Guiné de Ahmed Sékou Touré rejeitou o arranjo em referendo e escolheu independência imediata. Paris respondeu retirando funcionários e equipamentos, demonstração concreta do preço imposto à ruptura plena.

O que aconteceu: a cronologia do Ano da África

A expressão “Ano da África” designa a concentração sem precedentes de independências e a entrada do continente na diplomacia multilateral. Não foi um processo único: houve transferências negociadas, federações frágeis, continuidade administrativa francesa e colapso violento no Congo.

Data Evento Consequência
1º jan. 1960 Independência de Camarões Ahmadou Ahidjo assume um Estado marcado pela guerra contra a UPC.
27 abr. 1960 Independência do Togo Sylvanus Olympio torna-se chefe do novo Estado.
26 jun. 1960 Independência de Madagascar A França mantém acordos militares, econômicos e monetários.
30 jun. 1960 Independência do Congo Belga A crise congolesa começa dias depois, com motim militar e secessões.
1º jul. 1960 Independência da Somália Somalilândia britânica e Somália italiana unem-se numa república.
1º ago. 1960 Independência do Daomé, atual Benim Hubert Maga preside uma soberania politicamente instável.
3 ago. 1960 Independência do Níger Hamani Diori mantém estreita cooperação com a França.
5 ago. 1960 Independência do Alto Volta, atual Burkina Faso Maurice Yaméogo assume a presidência.
7 ago. 1960 Independência da Costa do Marfim Félix Houphouët-Boigny consolida a aliança econômica com Paris.
11 ago. 1960 Independência do Chade François Tombalbaye herda profundas divisões regionais.
13 ago. 1960 Independência da República Centro-Africana David Dacko torna-se presidente.
15 ago. 1960 Independência do Congo-Brazzaville Fulbert Youlou dirige o novo Estado.
17 ago. 1960 Independência do Gabão Léon M’ba preserva vínculos estratégicos franceses.
20 ago. 1960 Senegal deixa a Federação do Mali A federação, independente desde 20 jun. de 1960, desfaz-se.
22 set. 1960 República do Mali proclamada Modibo Keïta governa o antigo Sudão Francês.
1º out. 1960 Independência da Nigéria O maior território colonial britânico africano torna-se federação soberana.
28 nov. 1960 Independência da Mauritânia Marrocos contesta inicialmente o novo Estado.

“A independência do Congo é um passo decisivo para a libertação de todo o continente africano.” — Patrice Lumumba, discurso da independência, 30 de junho de 1960.

Os números e o novo peso africano

As 17 independências de 1960 distribuíram-se entre 14 territórios franceses, 2 britânicos e 1 belga. A contagem inclui Senegal e Mali como Estados sucessores da breve Federação do Mali; a Somália resultou da união de 2 territórios em 1960. Em setembro e outubro de 1960, 16 novos Estados africanos foram admitidos na ONU; a Mauritânia só entrou em 1961, após o veto soviético de 1960.

Países africanos independentes em 1960 por antigo império colonialFrança 14, Reino Unido 2 e Bélgica 1.Independências africanas em 1960: 17França14Reino Unido2Bélgica10714

Em 14 de dezembro de 1960, a Assembleia Geral aprovou a Resolução 1514 (XV), declaração contra o colonialismo, por 89 votos a favor, nenhum contra e 9 abstenções. Em 21 de março de 1960, a polícia do apartheid matou 69 pessoas e feriu 180, segundo a Comissão da Verdade e Reconciliação sul-africana, em Sharpeville.

O Ano da África ampliou votos africanos na ONU, mas a soberania econômica permaneceu muito mais concentrada que a soberania diplomática.

O que 1960 colocou em movimento

No Congo, a Force Publique amotinou-se em 5 de julho de 1960; Bélgica interveio militarmente, e Katanga, rica em cobre e urânio, declarou secessão em 11 de julho sob Moïse Tshombe. O primeiro-ministro Patrice Lumumba foi deposto, preso e assassinado em 17 de janeiro de 1961 por autoridades katanguesas com participação belga; uma comissão parlamentar belga concluiu, em 2001, que determinados integrantes do governo belga tiveram “responsabilidade moral”. A crise matou cerca de 100 mil pessoas entre 1960 e 1965, estimativa frequentemente adotada por historiadores como Georges Nzongola-Ntalaja.

Nos antigos territórios franceses, acordos de cooperação conservaram bases, assessores, preferências comerciais e o franco CFA. Criado em 1945, o sistema monetário permaneceu ligado ao Tesouro francês após 1960, condicionando reservas e política cambial. Essas continuidades alimentaram a Françafrique, rede de presidentes, militares, serviços secretos e empresas francesas.

A soberania também herdou fronteiras desenhadas pelos impérios e economias dependentes de poucos produtos. Em 1963, 32 chefes de Estado e de governo fundaram a Organização da Unidade Africana, defendendo a integridade das fronteiras existentes para evitar guerras generalizadas. Consulte a história mais ampla das neocolônias e a linha do tempo africana.

Como 1960 é lembrado — e o que a celebração oculta

1960 permanece símbolo legítimo de vitória anticolonial: povos antes classificados como súditos tornaram-se cidadãos de Estados reconhecidos, e líderes africanos passaram a falar em nome próprio nas instituições internacionais. Mas a memória cerimonial pode ocultar guerras coloniais ainda ativas em 1960, sobretudo na Argélia, em Camarões e nos territórios portugueses.

Também pode confundir transferência constitucional com descolonização concluída. Golpes, assassinatos e intervenções posteriores não decorreram de uma incapacidade africana abstrata: operaram sobre Estados deliberadamente extrativos, fronteiras coloniais e interferência estrangeira durante a Guerra Fria. Em 1960, Portugal ainda controlava Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe; a maioria só conquistaria independência em 1974–1975. A África do Sul manteve o apartheid até 1994.

Por isso, o Ano da África deve ser lido como abertura, não encerramento: independência jurídica em 1960, luta prolongada pela soberania material depois dela. Veja outros marcos em /pt/timeline.

Fontes e leituras complementares

Perguntas frequentes

Por que 1960 é chamado de Ano da África?
Porque 17 países africanos alcançaram independência formal em 1960: 14 ex-colônias francesas, 2 britânicas e o Congo Belga. A entrada de 16 novos Estados africanos na ONU naquele ano alterou a diplomacia mundial; a Mauritânia, também independente em 1960, foi admitida apenas em 1961 após um veto soviético.
Quais países africanos se tornaram independentes em 1960?
Foram Camarões, Togo, Madagascar, República Democrática do Congo, Somália, Benim, Níger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, República Centro-Africana, República do Congo, Gabão, Senegal, Mali, Nigéria e Mauritânia. A lista totaliza 17 Estados em 1960, embora Senegal e Mali tenham inicialmente integrado a Federação do Mali.
A independência de 1960 encerrou o colonialismo na África?
Não. Em 1960, Portugal ainda dominava Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe; a maioria tornou-se independente em 1974–1975. França, Bélgica e Reino Unido também conservaram interesses militares e econômicos, enquanto a África do Sul manteve o apartheid até 1994.
Quais foram os termos econômicos da independência das colônias francesas?
A partir de 1960, vários governos assinaram acordos de cooperação que preservavam assessores, bases, preferências comerciais e o franco CFA, criado em 1945. O Tesouro francês continuou no centro do regime cambial. Esses mecanismos, somados a relações pessoais entre Paris e presidentes africanos, formaram parte da rede conhecida como Françafrique.
O que aconteceu no Congo logo após a independência?
O Congo tornou-se independente da Bélgica em 30 de junho de 1960. A força pública amotinou-se em 5 de julho, tropas belgas intervieram e Katanga separou-se em 11 de julho. O primeiro-ministro Patrice Lumumba foi assassinado em 17 de janeiro de 1961. Historiadores estimam cerca de 100 mil mortes na crise entre 1960 e 1965.

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