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1994: o fim do apartheid formal e suas permanências

Como a eleição de 1994 encerrou o apartheid formal na África do Sul, levou Mandela ao poder e preservou desigualdades de terra, renda e riqueza.

1994: o fim do apartheid formal e suas permanências
Wikimedia Commons / Wikipedia — 1994 South African general election

Entre 26 e 29 de abril de 1994, a África do Sul realizou sua primeira eleição nacional por sufrágio universal. A vitória do Congresso Nacional Africano (ANC) levou Nelson Mandela à Presidência e encerrou o Estado de apartheid, mas não redistribuiu automaticamente terra, riqueza, moradia ou poder econômico.

A transição substituiu a supremacia branca legal por uma democracia constitucional negociada. Evitou uma guerra civil ampla e criou direitos políticos efetivos; ao mesmo tempo, preservou propriedades, empresas e estruturas espaciais formadas por séculos de colonialismo e segregação. Este marco deve ser lido junto às páginas sobre a África do Sul e o racismo moderno.

Pontos-chave

  • A eleição de abril de 1994 extinguiu a exclusão racial formal do voto e levou Nelson Mandela à Presidência da África do Sul.
  • O ANC recebeu 62,65% dos votos válidos em 1994, conquistando 252 das 400 cadeiras da Assembleia Nacional.
  • A transição ocorreu sob violência: cerca de 14.000 pessoas morreram em conflitos políticos entre 1990 e abril de 1994.
  • A Constituição de 1996 consolidou direitos democráticos, mas propriedade fundiária, riqueza e geografia urbana permaneceram fortemente racializadas.
  • A Comissão da Verdade registrou mais de 21.000 depoimentos, mas a anistia e os poucos processos limitaram a responsabilização criminal.

Antes de 1994: democracia racialmente fechada

O apartheid, instituído pelo governo do Partido Nacional em 1948, transformou a supremacia branca em sistema administrativo explícito. Leis de classificação racial, passes, remoção e residência determinaram onde pessoas negras podiam viver, trabalhar e possuir bens. O Natives Land Act de 1913 reservou inicialmente cerca de 7% do território à maioria africana; a legislação de 1936 ampliou a proporção prevista para aproximadamente 13%.

Após o banimento do ANC e do Congresso Pan-Africanista em 1960, prisão, exílio e luta armada coexistiram com greves e mobilização comunitária. Segundo a Comissão da Verdade e Reconciliação (TRC), o levante de Soweto iniciado em 16 de junho de 1976 deixou pelo menos 575 mortos até fevereiro de 1977; estimativas contemporâneas variaram de cerca de 176 a mais de 700, conforme período e casos contabilizados.

Na década de 1980, sanções, fuga de capitais, resistência interna e conflitos patrocinados pelo Estado tornaram o regime insustentável. Em 2 de fevereiro de 1990, o presidente F. W. de Klerk legalizou o ANC e outras organizações. Nelson Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990, após 27 anos de prisão, contados desde 1962.

“I have fought against white domination, and I have fought against black domination.” — Nelson Mandela, 1964, declaração no Julgamento de Rivonia.

O horizonte era revolucionário, mas a saída foi negociada: sufrágio universal, Constituição interina e garantias jurídicas para proprietários e funcionários do antigo Estado.

O que aconteceu: da negociação à eleição

As negociações ocorreram sob violência intensa, sobretudo em KwaZulu-Natal e no atual Gauteng. O South African Institute of Race Relations registrou aproximadamente 14.000 mortes políticas entre 1990 e abril de 1994. A TRC documentou colaboração clandestina entre agentes estatais e forças contrárias ao ANC, sem reduzir toda a violência a uma única cadeia de comando.

Data Evento Consequência
2 fev. 1990 De Klerk anuncia a legalização do ANC, PAC e SACP Abre a negociação formal
11 fev. 1990 Mandela deixa a prisão O ANC recupera liderança pública
20 dez. 1991 Inicia-se a CODESA Governo e movimentos discutem nova ordem
17 jun. 1992 Massacre de Boipatong mata 45 pessoas ANC suspende negociações
7 set. 1992 Massacre de Bisho mata 28 manifestantes e 1 soldado Pressão pela retomada do acordo
10 abr. 1993 Chris Hani é assassinado Mandela contém escalada nacional
18 nov. 1993 Constituição interina é aprovada Estabelece sufrágio universal e governo de unidade
26–29 abr. 1994 Ocorre a primeira eleição nacional não racial 19.726.579 votos válidos são apurados pela IEC
9 maio 1994 Assembleia Nacional elege Mandela Primeiro presidente negro do país
10 maio 1994 Mandela toma posse em Pretória Começa o Governo de Unidade Nacional

O ANC recebeu 12.237.655 votos, ou 62,65%, em 1994, conquistando 252 das 400 cadeiras da Assembleia Nacional. O Partido Nacional obteve 20,39% e 82 cadeiras; o Inkatha Freedom Party, 10,54% e 43 cadeiras, segundo a Comissão Eleitoral Independente (IEC).

Os números da ruptura e da continuidade

A população sul-africana era de cerca de 40 milhões em 1994, conforme séries retrospectivas do Banco Mundial. A IEC registrou 19.726.579 votos válidos na eleição de 1994. A votação durante quatro dias exigiu cédulas e urnas em localidades onde milhões jamais haviam participado de uma eleição nacional.

Percentual dos votos nacionais na eleição sul-africana de 1994ANC 62,65%; Partido Nacional 20,39%; Inkatha Freedom Party 10,54%; demais partidos 6,42%.ANC62,65%Partido Nacional20,39%Inkatha10,54%Demais6,42%Fonte: IEC, resultados nacionais de 1994

O avanço político contrastava com a propriedade fundiária. A auditoria estatal de 2017 concluiu que indivíduos brancos possuíam 72% das terras agrícolas e fazendas detidas por indivíduos, contra 4% de negros africanos; a medição excluía terras de empresas, fundos e parte das áreas comunais, portanto não representa todo o território.

A desigualdade também sobreviveu. O Banco Mundial estimou coeficiente de Gini de consumo de 0,63 em 2014/15, entre os mais altos medidos mundialmente. Em 2022, o desemprego oficial era 33,5% entre negros africanos e 7,7% entre brancos, segundo a Statistics South Africa. Esses dados posteriores não anulam mudanças na classe média, nos serviços públicos ou na representação; demonstram que a cidadania política não desfez a economia racializada.

O que 1994 colocou em movimento — e o que preservou

A Constituição definitiva de 1996 estabeleceu igualdade, direitos socioeconômicos e uma Corte Constitucional. A TRC, criada pelo Promotion of National Unity and Reconciliation Act de 1995, recebeu mais de 21.000 depoimentos de vítimas; cerca de 2.000 pessoas compareceram a audiências públicas, segundo seu relatório final de 1998. Dos 7.112 pedidos de anistia, 849 foram concedidos e 5.392 recusados, conforme balanço final da comissão.

A transição foi uma democratização real do Estado, não uma transferência equivalente de patrimônio. A distinção explica tanto a dimensão histórica de 1994 quanto seus limites materiais.

O Programa de Reconstrução e Desenvolvimento prometeu moradia, eletrificação, água e reforma agrária. Em 1996, porém, o governo adotou a estratégia macroeconômica GEAR, com disciplina fiscal, abertura comercial e prioridade ao investimento. O compromisso constitucional com propriedade permitiu reforma, mas tornou desapropriações politicamente e juridicamente disputadas. A meta governamental de transferir 30% da terra agrícola comercial até 2014 não foi cumprida; avaliações oficiais publicadas antes de 2014 apontavam menos de 10%, com resultados variáveis conforme restituição e redistribuição fossem somadas.

Políticas de ação afirmativa e Black Economic Empowerment ampliaram representação empresarial negra, mas também favoreceram uma elite politicamente conectada sem alterar suficientemente a concentração. Municípios herdaram cidades separadas por longas distâncias entre bairros negros e empregos. A história posterior da África do Sul mostra que massacres não desapareceram com a democracia: em Marikana, em 16 de agosto de 2012, a polícia matou 34 mineiros grevistas. O episódio liga a ordem pós-apartheid às estruturas do racismo moderno, do trabalho barato e da extração mineral.

Como 1994 é lembrado e disputado

O dia 27 de abril tornou-se Freedom Day, feriado nacional. A memória oficial enfatiza filas multirraciais, a posse de Mandela e a “nação arco-íris”, expressão associada ao arcebispo Desmond Tutu. Essa narrativa registra uma conquista verdadeira: pessoas antes classificadas como súditos raciais tornaram-se cidadãs com voto igual.

A reconciliação, porém, pode funcionar como linguagem de esquecimento quando separada de restituição e responsabilização. Muitas famílias receberam reconhecimento público, mas poucas reparações proporcionais às perdas; numerosos perpetradores que não obtiveram anistia tampouco foram processados. A imagem internacional de uma transição milagrosa frequentemente apaga os cerca de 14.000 mortos políticos entre 1990 e abril de 1994 estimados pelo South African Institute of Race Relations.

Lembrar 1994 com precisão exige sustentar duas verdades: o apartheid jurídico foi derrotado, e sua distribuição racial de território, riqueza, risco ambiental e trabalho não foi. A eleição não foi fraude simbólica nem libertação concluída; foi uma ruptura democrática decisiva dentro de uma ordem econômica parcialmente preservada.

Fontes e leituras complementares

Perguntas frequentes

Quando terminou oficialmente o apartheid na África do Sul?
O apartheid formal terminou por etapas entre 1990 e 1994. F. W. de Klerk legalizou o ANC em 2 de fevereiro de 1990; as principais leis raciais foram revogadas até 1991; e a eleição por sufrágio universal ocorreu de 26 a 29 de abril de 1994. Nelson Mandela tomou posse em 10 de maio de 1994, encerrando o governo exclusivo da minoria branca.
Qual foi o resultado da eleição sul-africana de 1994?
Segundo a Comissão Eleitoral Independente, foram apurados 19.726.579 votos válidos em 1994. O ANC recebeu 12.237.655 votos, ou 62,65%, e conquistou 252 das 400 cadeiras. O Partido Nacional obteve 20,39% e 82 cadeiras; o Inkatha Freedom Party, 10,54% e 43 cadeiras. Nelson Mandela foi eleito presidente pela Assembleia Nacional em 9 de maio.
Por que 1994 não eliminou a desigualdade racial?
A eleição de 1994 democratizou o Estado, mas não confiscou nem redistribuiu em escala equivalente terras, empresas, minas e patrimônio acumulados sob colonialismo e apartheid. A auditoria fundiária estatal de 2017 atribuiu a brancos 72% das fazendas e terras agrícolas pertencentes a indivíduos. Em 2022, a Statistics South Africa mediu desemprego de 33,5% entre negros africanos e 7,7% entre brancos.
Quantas pessoas morreram durante a transição para a democracia?
O South African Institute of Race Relations estimou aproximadamente 14.000 mortes por violência política entre 1990 e abril de 1994. Massacres específicos incluem Boipatong, onde 45 pessoas morreram em 17 de junho de 1992, e Bisho, onde 28 manifestantes e 1 soldado morreram em 7 de setembro de 1992. A contagem varia conforme período, definição e fonte.
O que fez a Comissão da Verdade e Reconciliação?
Criada por lei em 1995 e presidida por Desmond Tutu, a Comissão da Verdade e Reconciliação investigou violações cometidas entre 1960 e 1994. Seu relatório de 1998 informou mais de 21.000 depoimentos de vítimas e cerca de 2.000 comparecimentos públicos. Ao fim do processo, 7.112 pessoas haviam pedido anistia; 849 pedidos foram concedidos e 5.392 recusados.

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Fontes e leituras

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