1994: o fim do apartheid formal e suas permanências
Como a eleição de 1994 encerrou o apartheid formal na África do Sul, levou Mandela ao poder e preservou desigualdades de terra, renda e riqueza.

Entre 26 e 29 de abril de 1994, a África do Sul realizou sua primeira eleição nacional por sufrágio universal. A vitória do Congresso Nacional Africano (ANC) levou Nelson Mandela à Presidência e encerrou o Estado de apartheid, mas não redistribuiu automaticamente terra, riqueza, moradia ou poder econômico.
A transição substituiu a supremacia branca legal por uma democracia constitucional negociada. Evitou uma guerra civil ampla e criou direitos políticos efetivos; ao mesmo tempo, preservou propriedades, empresas e estruturas espaciais formadas por séculos de colonialismo e segregação. Este marco deve ser lido junto às páginas sobre a África do Sul e o racismo moderno.
Pontos-chave
- A eleição de abril de 1994 extinguiu a exclusão racial formal do voto e levou Nelson Mandela à Presidência da África do Sul.
- O ANC recebeu 62,65% dos votos válidos em 1994, conquistando 252 das 400 cadeiras da Assembleia Nacional.
- A transição ocorreu sob violência: cerca de 14.000 pessoas morreram em conflitos políticos entre 1990 e abril de 1994.
- A Constituição de 1996 consolidou direitos democráticos, mas propriedade fundiária, riqueza e geografia urbana permaneceram fortemente racializadas.
- A Comissão da Verdade registrou mais de 21.000 depoimentos, mas a anistia e os poucos processos limitaram a responsabilização criminal.
Antes de 1994: democracia racialmente fechada
O apartheid, instituído pelo governo do Partido Nacional em 1948, transformou a supremacia branca em sistema administrativo explícito. Leis de classificação racial, passes, remoção e residência determinaram onde pessoas negras podiam viver, trabalhar e possuir bens. O Natives Land Act de 1913 reservou inicialmente cerca de 7% do território à maioria africana; a legislação de 1936 ampliou a proporção prevista para aproximadamente 13%.
Após o banimento do ANC e do Congresso Pan-Africanista em 1960, prisão, exílio e luta armada coexistiram com greves e mobilização comunitária. Segundo a Comissão da Verdade e Reconciliação (TRC), o levante de Soweto iniciado em 16 de junho de 1976 deixou pelo menos 575 mortos até fevereiro de 1977; estimativas contemporâneas variaram de cerca de 176 a mais de 700, conforme período e casos contabilizados.
Na década de 1980, sanções, fuga de capitais, resistência interna e conflitos patrocinados pelo Estado tornaram o regime insustentável. Em 2 de fevereiro de 1990, o presidente F. W. de Klerk legalizou o ANC e outras organizações. Nelson Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990, após 27 anos de prisão, contados desde 1962.
“I have fought against white domination, and I have fought against black domination.” — Nelson Mandela, 1964, declaração no Julgamento de Rivonia.
O horizonte era revolucionário, mas a saída foi negociada: sufrágio universal, Constituição interina e garantias jurídicas para proprietários e funcionários do antigo Estado.
O que aconteceu: da negociação à eleição
As negociações ocorreram sob violência intensa, sobretudo em KwaZulu-Natal e no atual Gauteng. O South African Institute of Race Relations registrou aproximadamente 14.000 mortes políticas entre 1990 e abril de 1994. A TRC documentou colaboração clandestina entre agentes estatais e forças contrárias ao ANC, sem reduzir toda a violência a uma única cadeia de comando.
| Data | Evento | Consequência |
|---|---|---|
| 2 fev. 1990 | De Klerk anuncia a legalização do ANC, PAC e SACP | Abre a negociação formal |
| 11 fev. 1990 | Mandela deixa a prisão | O ANC recupera liderança pública |
| 20 dez. 1991 | Inicia-se a CODESA | Governo e movimentos discutem nova ordem |
| 17 jun. 1992 | Massacre de Boipatong mata 45 pessoas | ANC suspende negociações |
| 7 set. 1992 | Massacre de Bisho mata 28 manifestantes e 1 soldado | Pressão pela retomada do acordo |
| 10 abr. 1993 | Chris Hani é assassinado | Mandela contém escalada nacional |
| 18 nov. 1993 | Constituição interina é aprovada | Estabelece sufrágio universal e governo de unidade |
| 26–29 abr. 1994 | Ocorre a primeira eleição nacional não racial | 19.726.579 votos válidos são apurados pela IEC |
| 9 maio 1994 | Assembleia Nacional elege Mandela | Primeiro presidente negro do país |
| 10 maio 1994 | Mandela toma posse em Pretória | Começa o Governo de Unidade Nacional |
O ANC recebeu 12.237.655 votos, ou 62,65%, em 1994, conquistando 252 das 400 cadeiras da Assembleia Nacional. O Partido Nacional obteve 20,39% e 82 cadeiras; o Inkatha Freedom Party, 10,54% e 43 cadeiras, segundo a Comissão Eleitoral Independente (IEC).
Os números da ruptura e da continuidade
A população sul-africana era de cerca de 40 milhões em 1994, conforme séries retrospectivas do Banco Mundial. A IEC registrou 19.726.579 votos válidos na eleição de 1994. A votação durante quatro dias exigiu cédulas e urnas em localidades onde milhões jamais haviam participado de uma eleição nacional.
O avanço político contrastava com a propriedade fundiária. A auditoria estatal de 2017 concluiu que indivíduos brancos possuíam 72% das terras agrícolas e fazendas detidas por indivíduos, contra 4% de negros africanos; a medição excluía terras de empresas, fundos e parte das áreas comunais, portanto não representa todo o território.
A desigualdade também sobreviveu. O Banco Mundial estimou coeficiente de Gini de consumo de 0,63 em 2014/15, entre os mais altos medidos mundialmente. Em 2022, o desemprego oficial era 33,5% entre negros africanos e 7,7% entre brancos, segundo a Statistics South Africa. Esses dados posteriores não anulam mudanças na classe média, nos serviços públicos ou na representação; demonstram que a cidadania política não desfez a economia racializada.
O que 1994 colocou em movimento — e o que preservou
A Constituição definitiva de 1996 estabeleceu igualdade, direitos socioeconômicos e uma Corte Constitucional. A TRC, criada pelo Promotion of National Unity and Reconciliation Act de 1995, recebeu mais de 21.000 depoimentos de vítimas; cerca de 2.000 pessoas compareceram a audiências públicas, segundo seu relatório final de 1998. Dos 7.112 pedidos de anistia, 849 foram concedidos e 5.392 recusados, conforme balanço final da comissão.
A transição foi uma democratização real do Estado, não uma transferência equivalente de patrimônio. A distinção explica tanto a dimensão histórica de 1994 quanto seus limites materiais.
O Programa de Reconstrução e Desenvolvimento prometeu moradia, eletrificação, água e reforma agrária. Em 1996, porém, o governo adotou a estratégia macroeconômica GEAR, com disciplina fiscal, abertura comercial e prioridade ao investimento. O compromisso constitucional com propriedade permitiu reforma, mas tornou desapropriações politicamente e juridicamente disputadas. A meta governamental de transferir 30% da terra agrícola comercial até 2014 não foi cumprida; avaliações oficiais publicadas antes de 2014 apontavam menos de 10%, com resultados variáveis conforme restituição e redistribuição fossem somadas.
Políticas de ação afirmativa e Black Economic Empowerment ampliaram representação empresarial negra, mas também favoreceram uma elite politicamente conectada sem alterar suficientemente a concentração. Municípios herdaram cidades separadas por longas distâncias entre bairros negros e empregos. A história posterior da África do Sul mostra que massacres não desapareceram com a democracia: em Marikana, em 16 de agosto de 2012, a polícia matou 34 mineiros grevistas. O episódio liga a ordem pós-apartheid às estruturas do racismo moderno, do trabalho barato e da extração mineral.
Como 1994 é lembrado e disputado
O dia 27 de abril tornou-se Freedom Day, feriado nacional. A memória oficial enfatiza filas multirraciais, a posse de Mandela e a “nação arco-íris”, expressão associada ao arcebispo Desmond Tutu. Essa narrativa registra uma conquista verdadeira: pessoas antes classificadas como súditos raciais tornaram-se cidadãs com voto igual.
A reconciliação, porém, pode funcionar como linguagem de esquecimento quando separada de restituição e responsabilização. Muitas famílias receberam reconhecimento público, mas poucas reparações proporcionais às perdas; numerosos perpetradores que não obtiveram anistia tampouco foram processados. A imagem internacional de uma transição milagrosa frequentemente apaga os cerca de 14.000 mortos políticos entre 1990 e abril de 1994 estimados pelo South African Institute of Race Relations.
Lembrar 1994 com precisão exige sustentar duas verdades: o apartheid jurídico foi derrotado, e sua distribuição racial de território, riqueza, risco ambiental e trabalho não foi. A eleição não foi fraude simbólica nem libertação concluída; foi uma ruptura democrática decisiva dentro de uma ordem econômica parcialmente preservada.
Fontes e leituras complementares
- Independent Electoral Commission — resultados das eleições nacionais de 1994
- South African History Online — General South African History Timeline: 1990s
- Truth and Reconciliation Commission — relatório final
- Constituição da República da África do Sul, 1996
- Banco Mundial — diagnóstico da desigualdade na África do Sul
- Statistics South Africa — Quarterly Labour Force Survey
Perguntas frequentes
- Quando terminou oficialmente o apartheid na África do Sul?
- O apartheid formal terminou por etapas entre 1990 e 1994. F. W. de Klerk legalizou o ANC em 2 de fevereiro de 1990; as principais leis raciais foram revogadas até 1991; e a eleição por sufrágio universal ocorreu de 26 a 29 de abril de 1994. Nelson Mandela tomou posse em 10 de maio de 1994, encerrando o governo exclusivo da minoria branca.
- Qual foi o resultado da eleição sul-africana de 1994?
- Segundo a Comissão Eleitoral Independente, foram apurados 19.726.579 votos válidos em 1994. O ANC recebeu 12.237.655 votos, ou 62,65%, e conquistou 252 das 400 cadeiras. O Partido Nacional obteve 20,39% e 82 cadeiras; o Inkatha Freedom Party, 10,54% e 43 cadeiras. Nelson Mandela foi eleito presidente pela Assembleia Nacional em 9 de maio.
- Por que 1994 não eliminou a desigualdade racial?
- A eleição de 1994 democratizou o Estado, mas não confiscou nem redistribuiu em escala equivalente terras, empresas, minas e patrimônio acumulados sob colonialismo e apartheid. A auditoria fundiária estatal de 2017 atribuiu a brancos 72% das fazendas e terras agrícolas pertencentes a indivíduos. Em 2022, a Statistics South Africa mediu desemprego de 33,5% entre negros africanos e 7,7% entre brancos.
- Quantas pessoas morreram durante a transição para a democracia?
- O South African Institute of Race Relations estimou aproximadamente 14.000 mortes por violência política entre 1990 e abril de 1994. Massacres específicos incluem Boipatong, onde 45 pessoas morreram em 17 de junho de 1992, e Bisho, onde 28 manifestantes e 1 soldado morreram em 7 de setembro de 1992. A contagem varia conforme período, definição e fonte.
- O que fez a Comissão da Verdade e Reconciliação?
- Criada por lei em 1995 e presidida por Desmond Tutu, a Comissão da Verdade e Reconciliação investigou violações cometidas entre 1960 e 1994. Seu relatório de 1998 informou mais de 21.000 depoimentos de vítimas e cerca de 2.000 comparecimentos públicos. Ao fim do processo, 7.112 pessoas haviam pedido anistia; 849 pedidos foram concedidos e 5.392 recusados.
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Fontes e leituras
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