UNSILENCED.
XIArgumento

A mesma lógica. Outras vítimas.

Os sistemas industriais que aprisionam, mutilam e matam 80 bilhões de animais terrestres anualmente não são uma questão moral separada dos sistemas que aprisionavam seres humanos em plantações e campos de refugiados. São o mesmo manual de operações aplicado a uma população pior organizada politicamente.

Galinhas confinadas em gaiolas de bateria de arame empilhadas em um galpão avícola industrial em Bastos, São Paulo, Brasil.
Gaiolas de bateria, Bastos, São Paulo, 2007: a unidade de alojamento padrão para a galinha poedeira, um animal cuja vida produtiva inteira transcorre em um espaço menor que uma folha A4.Source — Wikimedia Commons / domínio público

Uma leitora que seguiu este arquivo até aqui leu sobre pessoas tratadas como propriedade: catalogadas, marcadas, transportadas com grilhões, trancadas em barracões, exploradas até a morte e descartadas. Essa mesma leitora, provavelmente, almoça sem pensar. Não é uma falha moral dela. É a medida do sucesso com que o sistema alimentar industrial se escondeu. Esconder-se não é acessório. É seu principal investimento.

Uma genealogia, não uma comparação

Dizer que a plantação colonial e o matadouro moderno compartilham uma lógica não é equiparar o sofrimento de uma pessoa escravizada com o de um porco. É apontar que as técnicas descendem umas das outras. A primeira esteira de desmontagem em movimento na história humana foi a linha de abate de porcos de Cincinnati nos anos 1860. Henry Ford reconheceu que foi inspiração direta da esteira de montagem de Detroit. Do matadouro, a linha passou para a fábrica de carros; da fábrica de carros, para a armamentista; da armamentista, para o campo de extermínio. O sistema industrial alemão que assassinou seis milhões de judeus apoiava-se em uma cadeia tecnológica que havia começado no abate contratual e em alta velocidade de animais.

O vocabulário compartilhado da justificação

Todo sistema que precisa fazer coisas insuportáveis a uma população acaba desenvolvendo o mesmo repertório de movimentos cognitivos. Os espanhóis nas Américas discutiam se os indígenas tinham alma. Os ingleses na Irlanda e na Índia debatiam se os colonizados tinham intelecto adulto. O Sul americano chamou 'três quintos' de pessoa as pessoas africanas escravizadas. A propaganda nazista descreveu os judeus como alimañas. Hoje, quando somos questionados sobre uma galinha, um porco ou uma vaca, a resposta mais comum é a mesma: eles não são realmente como nós. A categoria 'animal' passou a ser o que em outro tempo foi 'selvagem': um cercado administrativo para qualquer criatura cujo sofrimento possa ser invisibilizado.

Quem opera os matadouros

As mesmas populações sobre as quais se ergueu o mercado de trabalho colonial ocupam hoje os piores postos da indústria da carne. Nos Estados Unidos, os matadouros são trabalhados, desproporcionalmente, por migrantes latino-americanos, muitas vezes sem documentos, muitas vezes refugiados de golpes patrocinados pelos EUA na América Central. Na Europa, as linhas de abate dependem de mão de obra da Europa Oriental, do Norte da África e do Sul da Ásia. A taxa de lesões na indústria da carne americana é aproximadamente o triplo da média industrial. O sistema precisa de uma trabalhadora que possa ser substituída, intimidada e silenciada. É a mesma descrição do cargo que existe desde o século XVII.

Fileiras de galinhas poedeiras confinadas em gaiolas em bateria empilhadas em uma fazenda industrial de ovos em Bastos, São Paulo, Brasil, 2007.
Galinhas em bateria, Bastos, São Paulo, 2007. A gaiola industrial reproduz a lógica da plantação: extração máxima de um corpo legalmente redefinido como matéria-prima.Source — Maqi / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Quem paga a conta ambiental

A pecuária industrial é um dos maiores impulsionadores singulares do desmatamento amazônico (pela soja e pelo gado), da resistência a antibióticos, do risco de pandemia zoonótica e do esgotamento da água doce. Quase nada do custo é pago pelos consumidores das economias ricas que comem o produto. Pagam as comunidades indígenas cujas florestas são derrubadas, os trabalhadores expostos a pesticidas industriais, os habitantes rurais que vivem a jusante das lagoas de dejetos e a próxima pandemia zoonótica, que não chegará em primeira classe.

Figure

Animais terrestres abatidos anualmente para alimentação, no mundo

Em bilhões. 2022. Os animais aquáticos (estimados em 1-3 trilhões) não aparecem.

Source — FAO; Our World in Data

A pergunta honesta

A pergunta honesta não é se uma forma de sofrimento é 'tão ruim quanto' outra. O sofrimento não é uma competição. A pergunta honesta é se um marco moral que depende de uma subclasse invisível permanente —súdito colonial, escravo, preso, migrante, animal— pode, estruturalmente, entregar a dignidade que promete a alguém. A resposta a que este arquivo chega, a contragosto e repetidamente, é que não pode. A lógica deve ser confrontada na raiz, ou continuará encontrando corpos novos.

~80 bilhões

Animais terrestres mortos para alimentação a cada ano no mundo

1-3 trilhões

Animais aquáticos mortos a cada ano (faixa)

~80%

Dos antibióticos usados nos EUA vão para o gado

26%

Da terra livre de gelo é dedicada à pecuária

A plantação nunca fechou.
Mudou de espécie.

References

Sources & Further Reading

  1. [1]FAO, Livestock's Long Shadow (2006) and follow-up Tackling Climate Change Through Livestock (2013).
  2. [2]Faunalytics / Sentience Institute, Global Animal Slaughter Statistics.
  3. [3]Charles Patterson, Eternal Treblinka: Our Treatment of Animals and the Holocaust (Lantern, 2002).
  4. [4]Timothy Pachirat, Every Twelve Seconds: Industrialized Slaughter and the Politics of Sight (Yale, 2011).
  5. [5]Carol J. Adams, The Sexual Politics of Meat (Continuum, 1990).
  6. [6]Jonathan Safran Foer, Eating Animals (Little, Brown, 2009).
  7. [7]Aph Ko & Syl Ko, Aphro-ism: Essays on Pop Culture, Feminism, and Black Veganism from Two Sisters (Lantern, 2017).

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