Lothar von Trotha: arquiteto do genocídio Herero e Nama
Perfil documentado de Lothar von Trotha, general alemão que ordenou o extermínio dos Herero e conduziu a guerra genocida contra os Nama na Namíbia.

Lothar von Trotha (1848–1920) foi um general colonial alemão que comandou, entre 1904 e 1905, a guerra de extermínio contra os povos Herero e Nama no Sudoeste Africano Alemão, atual Namíbia.
Enviado pelo Império Alemão para esmagar a resistência à expropriação territorial, Trotha transformou uma guerra colonial em política genocida: cercou os Herero em Waterberg, expulsou sobreviventes para o deserto de Omaheke e promulgou uma ordem que autorizava atirar contra qualquer Herero encontrado na colônia. Sob o regime alemão, morreram cerca de 65 mil dos aproximadamente 80 mil Herero e cerca de 10 mil dos 20 mil Nama, segundo o relatório Whitaker das Nações Unidas, de 1985 — cifras históricas aproximadas, não uma contagem nominal completa.
Pontos-chave
- Lothar von Trotha comandou a campanha alemã que transformou resistência anticolonial em extermínio sistemático no Sudoeste Africano Alemão.
- Sua ordem de 2 de outubro de 1904 autorizou matar Herero desarmados e expulsar mulheres e crianças para o deserto.
- O relatório Whitaker de 1985 estimou 65 mil Herero e 10 mil Nama mortos durante o domínio genocida alemão.
- A revogação formal da ordem em dezembro de 1904 não encerrou campos, trabalho forçado, fome, doença nem perda de terras.
- A Alemanha reconheceu oficialmente o genocídio, mas comunidades Herero e Nama continuam contestando o acordo bilateral anunciado em 2021.
Quem foi Lothar von Trotha
Adrian Dietrich Lothar von Trotha nasceu em 3 de julho de 1848, em Magdeburgo, e morreu em 31 de março de 1920, em Bonn. Oficial prussiano desde 1865, participou das guerras austro-prussiana de 1866 e franco-prussiana de 1870–1871. Sua carreira colonial incluiu a África Oriental Alemã, onde reprimiu a resistência Wahehe em 1894–1897, e a China, onde comandou uma brigada alemã durante a intervenção internacional contra a Rebelião dos Boxers em 1900–1901.
Em maio de 1904, o imperador Guilherme II nomeou Trotha comandante da Schutztruppe no Sudoeste Africano Alemão, substituindo Theodor Leutwein. A escolha expressava uma mudança: da combinação de coerção e negociação para a destruição militar da resistência. Trotha permaneceu no comando até novembro de 1905.
“Conheço tribos suficientes na África. Todas partilham a mentalidade de que só cedem à violência.” — Lothar von Trotha, carta ao governador Theodor Leutwein, 11 de junho de 1904.
Essa formulação racializada apresentava povos africanos como coletividades compreensíveis apenas pela força e ajudava a legitimar uma violência sem distinção entre combatentes e civis.
Como funcionou seu poder colonial
O poder de Trotha combinou comando militar, soberania racial e controle do espaço. A colonização alemã havia confiscado terras e gado, imposto dívidas e trabalho coercitivo e submetido africanos à desigualdade jurídica. Quando os Herero se rebelaram em janeiro de 1904, Trotha recebeu tropas, artilharia e autoridade direta do Império Alemão.
Na batalha de Waterberg, em 11 de agosto de 1904, cerca de 1.500 soldados alemães atacaram uma concentração Herero que incluía famílias e rebanhos; a cifra militar é registrada por historiadores como Isabel V. Hull em 2005. O cerco incompleto abriu a rota oriental para Omaheke. Tropas alemãs ocuparam ou vigiaram pontos de água, patrulharam a borda do deserto e impediram o retorno dos fugitivos. Em 2 de outubro de 1904, Trotha publicou a ordem de extermínio, ou Vernichtungsbefehl.
“Dentro das fronteiras alemãs, todo Herero, armado ou desarmado, com ou sem gado, será fuzilado. Já não acolherei mulheres nem crianças; expulsá-las-ei para o seu povo ou mandarei atirar contra elas.” — Lothar von Trotha, Proclamação ao povo Herero, 2 de outubro de 1904.
Registro documentado e cronologia
A mortalidade resultou de tiros, sede, fome, doença, trabalho forçado e campos de concentração. O relatório Whitaker da ONU, publicado em 1985, estimou a morte de 65 mil Herero — 81% de uma população de aproximadamente 80 mil — e 10 mil Nama — 50% de cerca de 20 mil. Em 2004, a historiadora Gesine Krüger resumiu estimativas de 60 mil a 80 mil Herero mortos; a variação reflete censos coloniais incompletos. Para os Nama, a literatura acadêmica situa frequentemente as mortes em torno de 10 mil entre 1904 e 1908.
| Data | Evento |
|---|---|
| 3 jul. 1848 | Nascimento de Trotha em Magdeburgo |
| 1894–1897 | Comando colonial contra os Wahehe na África Oriental Alemã |
| 1900–1901 | Serviço no Corpo Expedicionário da Ásia Oriental na China |
| 3 maio 1904 | Nomeação para comandar a Schutztruppe na colônia |
| 11 ago. 1904 | Ataque alemão em Waterberg e expulsão rumo a Omaheke |
| 2 out. 1904 | Emissão da ordem de extermínio contra os Herero |
| 9 dez. 1904 | Berlim manda revogar formalmente a ordem, sem encerrar a perseguição |
| 1904–1908 | Guerra contra os Nama e sistema de campos e trabalho forçado |
| nov. 1905 | Trotha deixa o comando colonial |
| 31 mar. 1920 | Morte de Trotha em Bonn |
A defesa apresentada e o que ela omite
Trotha afirmou que uma “guerra racial” só terminaria com a destruição política dos Herero ou sua expulsão da colônia. Seus defensores posteriores alegaram necessidade militar, vingança por colonos mortos e falta de intenção genocida porque Berlim revogou a ordem em 9 de dezembro de 1904.
Essa defesa não resiste ao registro. A proclamação de 2 de outubro abrangia homens desarmados, mulheres e crianças; a expulsão para uma região sem água previsivelmente produzia morte em massa. A revogação imperial ocorreu mais de 2 meses depois e foi motivada por críticas políticas e missionárias, mas não restaurou liberdade ou terras. Sobreviventes foram internados em campos como Shark Island, submetidos a fome, doenças, violência sexual e trabalho forçado.
O relatório oficial britânico Report on the Natives of South-West Africa and Their Treatment by Germany, de 1918, reuniu testemunhos sobre espancamentos, execuções e mortalidade, embora também servisse aos interesses britânicos contra a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Seu contexto propagandístico exige crítica documental, não o descarte automático dos depoimentos corroborados por ordens alemãs, registros missionários e pesquisas posteriores.
Trotha não foi um oficial descontrolado isolado do Estado: recebeu nomeação imperial, tropas e logística; divergências em Berlim limitaram certos métodos, mas o sistema colonial tornou possível a catástrofe.
Legado, responsabilização e memória atual
Trotha nunca foi julgado. A Alemanha perdeu a colônia após a Primeira Guerra Mundial, e ele morreu em 1920. Durante décadas, parte da memória pública alemã apresentou a campanha como guerra colonial, minimizando sua intenção exterminadora. A pesquisa histórica e a mobilização Herero e Nama consolidaram seu reconhecimento como o primeiro genocídio do século XX.
Em 2004, no centenário de Waterberg, a ministra alemã Heidemarie Wieczorek-Zeul pediu perdão e afirmou que as atrocidades seriam chamadas de genocídio nos termos atuais. Em 2015, o governo alemão passou a empregar oficialmente essa designação. Em maio de 2021, Alemanha e Namíbia anunciaram uma declaração conjunta: Berlim reconheceria o genocídio e destinaria € 1,1 bilhão, ao longo de 30 anos, a projetos de desenvolvimento. Representantes Herero e Nama contestaram a exclusão de comunidades das negociações, a ausência de reparações juridicamente vinculantes e a linguagem de “gesto” financeiro.
Descendentes da família von Trotha participaram de um encontro de reconciliação em Omaruru em 2007, mas desculpas familiares não substituem responsabilidade estatal, restituição ou participação das vítimas. A memória de Trotha permanece ligada a demandas por devolução de restos humanos e objetos, reconhecimento jurídico, terras e reparações. Ver o dossiê do arquivo sobre o genocídio Herero e Nama e sua estrutura no Império Alemão.
Fontes e leituras adicionais
- Encyclopaedia Britannica — Herero
- United Nations — Whitaker Report, 1985
- Deutsches Historisches Museum — Der Krieg gegen die Herero
- United States Holocaust Memorial Museum — Herero and Nama Genocide
- German Federal Foreign Office — Joint Declaration with Namibia, 2021
- Isabel V. Hull — Absolute Destruction, Cornell University Press
Perguntas frequentes
- Quem foi Lothar von Trotha?
- Lothar von Trotha (1848–1920) foi um general prussiano e comandante colonial alemão. Em maio de 1904, Guilherme II enviou-o ao Sudoeste Africano Alemão, atual Namíbia. Trotha comandou Waterberg, ordenou a expulsão dos Herero para Omaheke e dirigiu a fase inicial da guerra contra os Nama, tornando-se o principal executor militar do genocídio de 1904–1908.
- O que dizia a ordem de extermínio de Lothar von Trotha?
- Emitida em 2 de outubro de 1904, a ordem determinava que todo Herero encontrado dentro da colônia alemã, armado ou desarmado, fosse fuzilado. Mulheres e crianças seriam expulsas, sob ameaça de tiros. Berlim mandou revogá-la em 9 de dezembro de 1904, mas os sobreviventes continuaram sujeitos a campos, trabalho forçado e mortalidade em massa.
- Quantos Herero e Nama morreram no genocídio?
- O relatório Whitaker da ONU, de 1985, estimou 65 mil Herero mortos entre uma população aproximada de 80 mil e 10 mil Nama entre cerca de 20 mil. A historiadora Gesine Krüger registrou, em 2004, uma faixa de 60 mil a 80 mil mortos Herero. Censos coloniais incompletos impedem uma cifra nominal definitiva.
- Lothar von Trotha foi julgado por seus crimes?
- Não. Trotha deixou o comando no Sudoeste Africano Alemão em novembro de 1905, aposentou-se do Exército em 1910 e morreu em Bonn em 31 de março de 1920. Nenhum tribunal o responsabilizou pela ordem de 2 de outubro de 1904, pelas expulsões para Omaheke ou pelas mortes decorrentes da campanha colonial.
- A Alemanha pagou reparações pelo genocídio Herero e Nama?
- Em maio de 2021, Alemanha e Namíbia anunciaram reconhecimento político do genocídio e € 1,1 bilhão para projetos ao longo de 30 anos. Berlim qualificou a verba como gesto de reconhecimento, não reparação juridicamente devida. Lideranças Herero e Nama rejeitaram a exclusão de representantes das negociações e continuam exigindo participação direta, restituição de terras e reparações vinculantes.
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Fontes e leituras
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