Commonwealth das Nações: poder, império e legado
História crítica da Commonwealth das Nações, de sua origem imperial aos 56 membros atuais, com instituições, cifras, controvérsias e fontes.

A Commonwealth das Nações foi uma associação internacional formalizada em 1926 e transformada em sua configuração pós-imperial em 1949, reunindo, em 2026, 56 Estados soberanos, quase todos ligados historicamente ao Império Britânico.
Apresentada como cooperação voluntária entre países iguais, ela também funciona como estrutura de continuidade: conserva redes diplomáticas, jurídicas, linguísticas, financeiras e simbólicas formadas pelo Império Britânico. Não governa seus membros nem constitui uma federação, mas oferece ao Reino Unido influência internacional depois da descolonização e administra relações profundamente marcadas pela escravidão, pela expropriação colonial e pelas neocolônias.
Pontos-chave
- A Commonwealth reúne 56 Estados em 2026, quase todos formados sob o domínio, as fronteiras ou as redes do Império Britânico.
- Sua arquitetura combina igualdade soberana formal com instituições, língua, direito e circuitos financeiros herdados de uma ordem colonial profundamente desigual.
- O Secretariado coordena diplomacia e assistência desde 1965, mas não possui tribunal coercitivo, parlamento supranacional nem autoridade executiva sobre governos membros.
- Suspensões de Nigéria, Paquistão e Fiji demonstraram alguma capacidade disciplinar, embora seletiva, temporária e dependente do consenso político entre Estados.
- A sobrevivência da associação não resolve reivindicações por desculpas, devolução de patrimônio, abertura de arquivos, alívio da dívida e reparações pela escravidão.
O que é a Commonwealth das Nações
A Commonwealth surgiu da transformação do império em uma associação de Estados. A Declaração Balfour de 1926 reconheceu Reino Unido e domínios brancos como comunidades “autônomas” e formalmente iguais; o Estatuto de Westminster de 1931 deu base legislativa a essa fórmula. A Declaração de Londres de 1949 permitiu que a Índia republicana permanecesse na organização e reconheceu o monarca britânico apenas como símbolo da “livre associação”.
Em 2026, a associação possui 56 membros. Segundo o Secretariado da Commonwealth, eles somavam cerca de 2,7 bilhões de habitantes em 2024, aproximadamente 33% da população mundial daquele ano; cerca de 60% dessa população tinha menos de 30 anos em 2024. Gabão e Togo, admitidos em 2022, não foram colônias britânicas, enquanto Moçambique entrou em 1995 e Ruanda em 2009.
“United by a common allegiance to the Crown, and freely associated as members of the British Commonwealth of Nations.” — Arthur Balfour, 1926, Report of the Inter-Imperial Relations Committee.
| Data | Evento |
|---|---|
| 1926 | A Declaração Balfour define os domínios como formalmente iguais ao Reino Unido. |
| 1931 | O Estatuto de Westminster amplia a autonomia legislativa dos domínios participantes. |
| 1949 | A Declaração de Londres cria a fórmula moderna e mantém a Índia republicana. |
| 1965 | O Secretariado da Commonwealth é instituído; Arnold Smith torna-se secretário-geral. |
| 1971 | A Declaração de Singapura enuncia princípios contra racismo e dominação colonial. |
| 1986 | Os Jogos da Commonwealth enfrentam boicote de 32 dos 59 países convidados, segundo os registros dos Jogos, por causa da política britânica sobre o apartheid. |
| 1995 | A Nigéria é suspensa após a execução de Ken Saro-Wiwa e outros oito ativistas ogoni. |
| 2013 | A Gâmbia abandona a associação durante o governo de Yahya Jammeh. |
| 2018 | A Gâmbia regressa; líderes escolhem Charles como futuro chefe simbólico. |
| 2022 | Gabão e Togo elevam o total de membros de 54 para 56. |
Como opera o poder
O Secretariado, criado em 1965 e sediado em Londres, coordena relações intergovernamentais, eleições, assistência técnica e reuniões de chefes de governo. A Commonwealth Foundation, criada em 1966, trabalha com organizações civis. Decisões políticas são tomadas por consenso, sem parlamento, tribunal coercitivo, forças armadas ou tratado constitucional único.
O chefe da Commonwealth não possui poder executivo e o cargo não é juridicamente hereditário. Elizabeth II exerceu a função de 1952 a 2022; Charles III assumiu-a em 2022, após ter sido indicado pelos líderes em 2018. Em 2026, Charles III também era chefe de Estado de 15 reinos da Commonwealth, contando o Reino Unido, enquanto os demais membros eram repúblicas ou monarquias próprias.
O poder efetivo está nas redes: inglês institucional, common law, formação administrativa, bolsas, diplomacia, comércio e acesso às elites. Essas conexões podem facilitar cooperação, mas também perpetuar vantagens acumuladas no Império Britânico, com Londres como centro financeiro e jurídico de fluxos oriundos de antigas colônias.
O registro documentado: escala, riqueza e coerção
A Commonwealth não cometeu, como organização, todos os crimes do colonialismo britânico; foi construída, porém, sobre suas fronteiras, instituições e desigualdades. O historiador Mike Davis estimou, em 2001, que as grandes fomes de 1876–1879, 1889–1891 e 1896–1902 mataram entre 30 milhões e 60 milhões de pessoas na Índia, China e Brasil; parte central de sua análise demonstra como a política imperial britânica agravou a mortalidade na Índia. Para Bengala em 1943, estimativas acadêmicas e oficiais geralmente variam entre 2 milhões e 3 milhões de mortos; a Comissão de Inquérito sobre a Fome registrou, em 1945, cerca de 1,5 milhão de mortes diretamente atribuíveis à fome, além de epidemias associadas.
No Quênia, a Comissão de Direitos Humanos do país estimou, em 2006, que 90 mil africanos foram mortos ou mutilados durante a repressão à revolta Mau Mau, entre 1952 e 1960, e que 160 mil foram detidos; David Anderson documentou, em 2005, 1.090 execuções judiciais. Em 2013, o governo britânico indenizou 5.228 sobreviventes com £19,9 milhões, sem admitir responsabilidade jurídica geral.
A expansão institucional acompanhou a descolonização: de 8 membros em 1949 para 56 em 2022. Crescimento, contudo, não equivale a reparação. A organização não estabeleceu um mecanismo comum para indenizar escravidão, massacres, trabalho forçado ou pilhagem colonial.
A defesa institucional e seus limites
Defensores citam diplomacia discreta, observação eleitoral, bolsas, programas jurídicos e pressão contra o apartheid. A Declaração de Singapura de 1971 condenou racismo e coerção colonial; a Declaração de Harare de 1991 vinculou a associação a democracia, direitos humanos e Estado de direito. A Commonwealth Ministerial Action Group, criada em 1995, pode recomendar suspensões.
A defesa mais forte é que uma rede pós-imperial pode ser apropriada por seus antigos súditos: Estados africanos, caribenhos e asiáticos utilizaram a associação para confrontar o Reino Unido sobre Rodésia, apartheid e sanções à África do Sul.
Esse argumento tem respaldo histórico, mas limites claros. A Nigéria foi suspensa em 1995 e readmitida em 1999; o Paquistão sofreu suspensões em 1999–2004 e 2007–2008; Fiji permaneceu plenamente suspensa de 2009 a 2014. As medidas foram politicamente seletivas, temporárias e desprovidas de força judicial. O consenso também permite que governos poderosos bloqueiem ações, como ocorreu nas divisões sobre sanções ao apartheid durante a década de 1980.
Sobrevivência, reparação e memória atual
A Commonwealth oferece a Charles III uma plataforma internacional derivada da monarquia imperial, embora os membros possam tornar-se repúblicas sem sair. Barbados substituiu Elizabeth II por uma presidente em 30 de novembro de 2021 e permaneceu membro. A continuidade separa formalmente associação e Coroa, mas não elimina a centralidade britânica nem as disputas sobre patrimônio roubado e reparações.
Em 2022, Charles declarou em Ruanda que não podia descrever “a profundidade de sua tristeza pessoal” pelo sofrimento causado pela escravidão. A formulação não foi um pedido formal de desculpas nem incluiu compromisso financeiro. Em 2023, a Comissão de Reparações da CARICOM continuava defendendo seu plano de 10 pontos, lançado em 2014, que exige desculpas, repatriação, alívio da dívida e investimentos em saúde e educação.
A memória pública deve distinguir cooperação contemporânea de absolvição histórica. A Commonwealth pode apoiar pequenos Estados, eleições e intercâmbio sem converter a violência do Império Britânico em uma história neutra de “laços compartilhados”. Sua legitimidade futura depende de abrir arquivos, devolver objetos, reconhecer crimes específicos e negociar reparações com sociedades afetadas, não apenas com governos.
Fontes e leituras adicionais
Perguntas frequentes
- O que é a Commonwealth das Nações e quantos membros possui?
- A Commonwealth das Nações é uma associação voluntária formalizada em 1926 e reorganizada pela Declaração de Londres de 1949. Em 2026, possuía 56 Estados soberanos, após a entrada de Gabão e Togo em 2022. Quase todos foram colônias ou domínios britânicos; Moçambique, admitido em 1995, Ruanda, em 2009, e os dois membros de 2022 são exceções relevantes.
- A Commonwealth é a mesma coisa que o Império Britânico?
- Não. O Império Britânico exercia soberania colonial e coerção direta; a Commonwealth moderna, estabelecida em 1949, reúne Estados juridicamente soberanos que podem sair voluntariamente. Entretanto, ela nasceu das estruturas imperiais e preserva conexões linguísticas, jurídicas, diplomáticas e econômicas. Por isso, não deve ser tratada como simples continuação administrativa, nem como ruptura completa com o colonialismo britânico.
- O rei Charles III governa os países da Commonwealth?
- Não. Charles III tornou-se chefe simbólico da Commonwealth em 2022, cargo sem poder executivo e não juridicamente hereditário. Em 2026, ele era também chefe de Estado de 15 reinos da Commonwealth, incluindo o Reino Unido; os outros membros eram repúblicas ou monarquias próprias. Barbados tornou-se república em 30 de novembro de 2021 sem abandonar a associação.
- A Commonwealth combateu o apartheid na África do Sul?
- Vários membros africanos, asiáticos e caribenhos pressionaram por sanções nas décadas de 1970 e 1980, enquanto o governo britânico de Margaret Thatcher resistiu a medidas econômicas amplas. Em 1986, 32 dos 59 países convidados boicotaram os Jogos da Commonwealth em Edimburgo. A África do Sul havia saído em 1961 e regressou em 1994, após o fim do apartheid e a eleição de Nelson Mandela.
- A Commonwealth paga reparações pela escravidão e pelo colonialismo?
- Não existe, em 2026, um fundo geral da Commonwealth para reparações por escravidão, expropriação ou massacres coloniais. A CARICOM apresentou em 2014 um plano de 10 pontos, incluindo desculpas, repatriação, alívio da dívida e investimentos sociais. Charles III expressou “tristeza pessoal” em 2022, mas isso não constituiu pedido formal de desculpas nem compromisso financeiro do Reino Unido ou da organização.
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Fontes e leituras
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